sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Manoel de Barros, o encanto de descobrir

O Encanto de Descobrir Manoel de Barros
Por Hubert Alqueres
Premiado como melhor filme documentário na edição 2009 do Festival Paulínia de Cinema, Só dez por cento é mentira tem conquistado elogios e aplausos por onde passa. Não é para menos. Pedro Cézar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense, respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Elogiado por Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, sua obra é simples, moderna, repleta de originalidade e busca inspiração na infância e nas coisas corriqueiras e “desimportantes” do mundo.
Making of 12 Só Dez Por Cento é Mentira
Ele faz releituras, dá novas dimensões a objetos, traquitanas e “inutensílios”, valoriza personagens que encantam com sua simplicidade. O “absurdo verossímil que a gente vê no mundo infantil” nas palavras do diretor Pedro Cézar. A noção de verdade e invenção começa pelo título do filme, que se refere a como Manoel de Barros vê sua obra: “noventa por cento é invenção; só dez por cento é mentira”. E segue com uma explicação poética: “A invenção é um negócio profundo. Serve para aumentar o mundo”. Aos 93 anos, diz que até hoje só teve infância e, portanto, escreve “apenas” sobre ela. Depois dos 70, entrou no que chama de “terceira infância” e passou a produzir cada vez mais. E o filme mostra que continua vendo o mundo com olhar encantado, certo de que cada objeto não se limita ao seu significado literal: “as coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis.”
Declara ser poeta em tempo integral: “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde...” e escreve sobre as limitações do homem: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito”. E, talvez por isto, o filme se declare como sendo uma “desbiografia” do poeta e faça o elogio do “des-herói”, termo do autor para qualificar personagens que estão na contramão do convencional, a exemplo de Charles Chaplin - um vagabundo, um “herói ao contrário”.
O resultado é um mergulho estético na obra de Manoel de Barros. A fotografia e a música, onde predomina a viola, trazem a lembrança do Brasil profundo. As imagens são poéticas, frases e poemas do escritor são colocados na tela, como nos cadernos que ele mesmo confecciona e escreve a lápis, “em caligrafia miúda”. Fica evidente o esforço, lapidação e paciência com que lida com sua poesia.
Lá estão também os depoimentos de outros autores, cineastas atores, artistas plásticos e amigos da paisagem pantaneira que se transformaram em personagens de seu rico imaginário. E há, principalmente, o depoimento do próprio Manoel de Barros, que é conhecido por evitar exposição na mídia. Famoso por conceder entrevistas somente via correspondência, Manoel resistiu a autorizar a gravação de seus depoimentos. Para Pedro Cézar, “ele não nega contato com as pessoas. Só não gosta de ser registrado oralmente”, e reforça: “ele sempre recebe gente em sua casa, conversa numa boa. Só pede para que não seja gravado”. Afinal, “poesia não é para descrever, é para descobrir”, diz o poeta, enfatizando que ela pode estar em qualquer canto, bastando apenas preparar o olhar e, na tela surge mais uma crença sua: “poesia não é para compreender, poesia é para incorporar”.
O cineasta só conseguiu fazer a entrevista porque, depois de muito insistir, afirmou que era melhor deixar para lá, afinal o desejo de fazer o filme era “só um sonho”. O velho poeta, sabedor da importância dos sonhos, se rendeu e o documentário pôde virar realidade. “Venha amanhã bem cedo, pode fazer as perguntas. Se eu me interessar, eu respondo”. Respondeu a todas e Pedro Cézar soube aproveitar a oportunidade ao máximo.
Cenas inspiradas, manchas nas paredes sujas que se transformam em desenhos cheios de significado e lirismo. Pneus que, dos carros e das fábricas, vão parar nas mãos de garotos que os utilizam como balanços, brincam com suas bóias num lago ou as atiram de um para o outro num final de tarde, ao “lusco fusco”, momento mágico que sempre confunde como essa poesia, que desvenda novas leituras em matérias cheias de disfarce, muitas vezes quase que dissimuladas. Um filme que honra a qualidade do biografado e traz a magia e o encantamento da arte de se fazer cinema.

"Como estrelas na terra" - Criando condições à liberdade

COMO ESTRELAS NA TERRA


Uma lousa de sala de aula preenchida por números e letras misturados e, na frente dela, professoras típicas anunciando as notas de seus alunos. Aqueles que tiveram bom desempenho ganham um sorriso de satisfação, e aquele que sempre vai mal recebe uma expressão de decepção.

Assim inicia-se o filme que nos mostra, através da história de um menino com dislexia, o sofrimento pelo qual uma criança em idade escolar pode passar, cercada de pessoas incapazes de entender o que se passa com um outro, especialmente quando este é uma criança.  

"Como Estrelas na Terra” é dirigido pelo, até então, ator e produtor Aamir Khan, que impressiona pela qualidade, criticidade e sensibilidade do filme, no qual atua como o professor substituto Ram Shankar Nikumb. Embora a história seja focada em uma criança em especial, o filme mostra as negligências, falta de cuidado e de atenção com a maioria das crianças. Em especial, mostra o real papel do educador para a formação de um novo ser. 
       
Diferente da maior parte do cinema indiano, as músicas neste filme não são apenas para promoção do mesmo, mas uma parte importante da construção deste, sendo inseridas na historia quase como nos dizendo o que as situações representam, sem as cenas de dança típicas do cinema bollywoodiano - nome dado à indústria de cinema hindi, a maior indústria de cinema indiana, em termos de lucros e popularidade, cujo nome se deve à fusão de Bombaim (antigo nome de Mumbai, onde se localiza a indústria) e Hollywood (indústria cinematográfica americana).

 Sendo diferente de todas as outras pessoas, o menino Ishaan – protagonista do filme - sempre arranja confusão, mas por não estar dentro do mundo deles, consegue enxergar coisas que os outros deixam passar despercebidas. 

  A primeira música do filme nos mostra exatamente isso, ao criticar o ritmo de vida pré-moldado e frenético da família de Ishaan - que enfrenta diariamente uma “luta maluca para chegar a um destino”. Em oposição a isso, as crianças “não são escravas do tempo, são livres, tem reuniões com as borboletas e debates com as árvores.” 

Mas não é isso o que a sociedade espera delas, como vemos com a mãe do menino, que, mecanicamente, assume o papel de tirá-lo desse estado, procurando adaptá-lo para a vida no mundo dito real, o do trabalho, com horários marcados.     
   
Na escola, vemos a religião impondo regras e organização utópicas, sem levar em consideração as crianças, que não escutam, muito menos entendem, o que lhes dizem. No mesmo cenário, surge a professora enérgica que grita, impaciente, com os alunos que ela não enxerga.          

Ao ser ordenado a ler um texto, Ishaan responde que “As letras estão dançando”, e a professora acha que o aluno zomba dela. Tendo sua dificuldade ignorada, o garoto fica nervoso (como era de se esperar) e utiliza-se de ‘mal-comportamento’ para sair da situação. Não importa muito aqui o motivo pelo qual os professores fazem isso, mas sim o que acabam fazendo às crianças, que sempre pagam pela ignorância dos outros.          
 

Todos os outros alunos zombam de Ishaan, acabando por humilhá-lo, e, triste, o menino foge da escola à procura de liberdade, o que não encontraria naquele lugar. A música que se segue explicita o pensamento do menino: “Existem outros como eu? Não estou sozinho sonhando acordado, de olhos abertos?”
 

Para os pais, Ishaan é preguiçoso, desatento. O pai é agressivo, não percebe que ele é apenas uma criança e o quanto pode ser assustador para ele. Ambos os pais deveriam apoiar o menino, mas ficam nervosos, xingam, batem – não conseguem ver com os olhos do filho, apenas através dos seus.

Logo, Ishaan deverá mudar-se de escola, pois suas professoras dizem que ele não progride, erra de propósito e não se interessa pelas aulas. Mas a culpa é dele ou as aulas eram desinteressantes? Quem deveria fazê-lo se interessar e ajudá-lo a progredir? 

Frente ao “fracasso” do filho, os pais só conseguem pensar em si mesmos: o pai sente-se insultado por ter um filho chamado de retardado e a mãe, por sua vez, sente-se culpada, questionando-se sobre onde teria errado. Nenhum dos dois pensa em como o menino está se sentindo e o punem (colocando realmente a culpa pelo fracasso em Ishaan), mandando-o a um colégio interno, com o qual o menino tem pesadelos e implora para não ir. Ainda assim, ele não tem chances, pois está sozinho – sem alguém que possa entendê-lo.
 

As cenas em que Ishaan é deixado no colégio interno, ao som da música ‘Maa’, que significa mãe – uma das mais belas do filme –, mostram a dor e desencantamento do menino, ao se ver abandonado. “Sou tão ruim assim, mãe?”, ouvimos na canção que mostra os sentimentos de culpa e sofrimento pelos quais toda criança passa ao ser castigada por aqueles que mais ama.         

Toda criança passa por isso, ao apanhar dos pais – ou mesmo brigar com eles – e logo em seguida ser impulsionado a chorar no colo deles, afinal de contas não há a quem mais recorrer (são como o Deus que ama, e por isso pune, mas não deixa de merecer o amor do filho). 

O filme também destrói a crença de que a mãe sabe o que é melhor para o filho, mostrando que apenas o sentimento que se tem por este não é suficiente. Para criar uma criança do melhor modo é preciso ter conhecimento sobre o mundo, saber entender o outro e poder ajudar quando preciso, sabendo identificar necessidades e enxergar oportunidades.        
 

No colégio interno, a regra é disciplina. As crianças se adaptam ao sistema e apenas reproduzem o que lhes é dito, assim agradando aos ‘mestres’. “Lembre-se do que ele diz e imite-o”, sugere um colega de Ishaan, demonstrando o método com o qual é possível sobreviver ali (cenário idêntico às escolas tradicionais daqui – Brasil).       
 

 Ao longo dos dias, Ishaan ouve de todos ao seu redor (pai, mãe, professores, etc) a mesma opinião, de que é preguiçoso, desatento, incompetente... Ninguém busca compreender os motivos de seu comportamento, mas todos o julgam.       
 

“Por que você não consegue?”, berram os professores na música que se segue, onde vemos o desespero de Ishaan, que não consegue se adaptar ao sistema insano de obediência e repetição. Impossível não lembrar de “Another Brick In The Wall”, pelo tom agressivo com que as críticas à educação são feitas, com a diferença que, no filme em questão, os professores são quem têm a palavra, demonstrando toda a sua prepotência e arrogância frente ao papel de professores.
 

Longe da família e ridicularizado no novo ambiente, Ishaan torna-se apático, vazio. A vivacidade, alegria e curiosidade que o levavam a produzir ricos desenhos e pinturas, agora são substituídos pela tristeza do abandono, pela decepção, em especial com a atitude da mãe, pela repressão e autoritarismo que agora lhe são contínuos, sem ter para onde fugir.  

Anestesiado, o menino parece entrar em um ciclo autodestrutivo – não estando descartadas as possibilidades de suicídio ou abandono social – e não se dá conta de que poderia obter ajuda do novo professor que se apresentava de modo diferente, dizendo aos alunos que a partir de então, em sua aula, estavam livres.         

Este professor, Ram Shankar Nikumb, vindo de uma escola de crianças especiais, tem uma outra visão do ensino, que olha para o aluno e atende às suas necessidades, bem como abre novos caminhos. Os outros professores dizem-lhe, por sua vez, que seus métodos não funcionariam ali, onde as crianças eram preparadas para a “batalha da vida”.         
 

“Crianças têm de competir, fazer sucesso, vencer”, diz um dos professores, que deveria ser um profissional apto a lidar com as diferenças e mostrar que as coisas mais importantes não consegue-se passando por cima de ninguém, mas se obtém da própria vida. Mas ainda são poucos os professores que realmente sabem o valor e importância de sua profissão. 

Assume-se simplesmente o papel de adaptar as crianças ao mundo competitivo e alienante do trabalho – e achando que com isso estão contribuindo suficientemente para a formação dessas pessoas.   
 

Ram, diferente dos outros, olha para Ishaan e vê o que ninguém percebia, que “seus olhos berram por socorro”, e seu papel é ajudar o menino. Mas não é precipitado, antes busca analisar os cadernos, conversar com o único amigo de Ishaan e, inevitavelmente, procurar a família – essencialmente, busca entender quem é aquela criança.  

Ao som da música que dá título ao filme, vemos o professor Ram Nikumbh em contato com as crianças especiais e, em seguida, indo conversar com os pais de Ishaan. Antes de mostrar o papel do educador, o filme ensina, mais do que isso, o significado e as implicações de se ter um filho. O professor interpela os pais de Ishaan sobre as dificuldades do garoto, que para eles são apenas erros e indisciplina, e tenta mostrar-lhes que Ishaan não faz nada daquilo por ser preguiçoso ou burro, mas por ter dificuldade em entender as palavras e seus significados. O mal comportamento de Ishaan, explica aos pais, vem da dificuldade de admitir suas incapacidades: é mais fácil dizer “não quero”, ao invés de admitir que não consegue.          
 

O professor, então, depara-se com a dura realidade de que os pais não se importam que o filho esteja bem, mas que seja bem-sucedido perante os outros. “Como ele vai competir? Terei de alimentá-lo a vida toda?” questiona o pai, mostrando sua real preocupação com a própria imagem e desejo, desconsiderando as dificuldades, bem como o bem-estar do filho. “Nessa corrida desesperada, alimentam cavalos de corrida, não crianças”, indigna-se Ram, completando que forçar crianças a carregar o fardo das ambições de seus pais é pior do que trabalho infantil.       
 

Então que, compreendendo o ambiente onde viveu Ishaan e percebendo características de dislexia nos materiais e comportamento do aluno, o professor parte para sua missão de resgatar o garoto para a vida, despertando-lhe o interesse pelo estudo e mostrando-lhe que ele não está sozinho.           
 

Após Ishaan estar alcançando progressos em relação aos estudos, graças à compreensão do professor, o pai do menino vai ao colégio dizer a Ram que andaram pesquisando sobre dislexia, para que ele não ache que sua família não se importa com Ishaan. Neste momento marcante, o professor diz o que é importar-se e como isso é essencial para uma criança. Dar suporte, apoiar, encorajar, oferecer ajuda e carinho são coisas indispensáveis. 

É isso o que uma criança precisa dos pais, mas, na grande maioria das vezes, estes são muito mais eficazes em desencorajá-las e lhes fazer achar que são ruins, que são o problema. Isto foi o que fizeram também os pais de Ishaan – apontado por Ram. “Que bom que vocês acham que se importam”, conclui o professor, demonstrando que não concorda com o modo como os pais agiram com Ishaan, fazendo o pai perceber o quão responsável pelo sofrimento do filho ele era. 

É importante deixar claro que não é o diagnóstico de dislexia que desperta Ishaan, mas a grande oportunidade do garoto surge da compreensão, identificação e ajuda que lhe oferece o educador. Partindo do olhar da criança, e entendendo seu mundo, fica fácil abrir portas para a aprendizagem, utilizando métodos e recursos apropriados e interessantes. Ram teve a capacidade de colocar-se no lugar de seu aluno e, partindo de seu mundo, apresentá-lo aos conhecimentos que o menino tanto ansiava por construir, mas não tinha oportunidade ou auxílio.      
 

Aí vemos a diferença de um professor – educador – que se compromete com o aluno, não com os conteúdos. Em contato com outros professores, iguais aos tantos outros das escolas que frequentou, ou outros profissionais que poderiam lhe sugerir que tomasse remédios que apenas o adaptariam e entorpeceriam, o diagnóstico de dislexia pouco favoreceria Ishaan. 

Fracassada é a forma de ensinar que vemos incansavelmente no inicio do filme e por diversas vezes em nossas vidas, com a separação dos conhecimentos, descontextualização dos conteúdos com a vida das crianças e a obediência em oposição à reflexão e criticidade. A diferença está no modo como as dificuldades são observadas e trabalhadas, respeitando-se o ser humano por trás dos rótulos, observando suas potencialidades e dando importância ao que realmente fará a diferença na vida dessas crianças: o conhecimento.    

Diga-se de passagem que erros ou trocas grafêmicas (troca de letras semelhantes) e espelhamentos de letras são naturais quando as crianças entram no processo de alfabetização, e não indicam necessariamente que a criança seja disléxica.      
 

Ao final do filme, vemos os professores e pais de Ishaan reconhecendo suas limitações, se humanizando e percebendo os outros – cena difícil de ser vista na vida real. Temos realmente um final feliz – que não cabe aqui exprimir em palavras. Mas junto com os créditos, vemos que o final feliz é apenas na ficção, talvez apenas para algumas poucas crianças da vida real, pois surgem na tela imagens de crianças reais, malcuidadas, maltratadas, exploradas, que, ainda assim, sorriem e não deixam de ser crianças, ávidas por conhecimentos. 
 

O filme como um todo nos apresenta uma ficção que não tem nada de irreal – é a história da vida de incontáveis crianças e adultos. Quiséramos nós que tudo isso fosse apenas mais uma história de ficção


 "No mundo, há essas pequenas pedras preciosas, que desafiaram os caminhos do mundo, pois podiam olhá-lo com olhos diferentes. Seu pensamento era distinto e nem todos os entendiam. Eles enfrentaram oposição e, ainda assim, venceram, e o mundo ficou maravilhado."

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vinícius - Crítica de Jabor

 

O filme ‘Vinicius’ é a viagem a Ipanema do ar POR ARNALDO JABOR



Vem aí um estouro de bilheteria. Assim como os "Dois filhos de Francisco", é também um poema afetivo, só que em outra chave. Não é um filme de ficção tradicional, não é um documentário. É uma terceira coisa, um ensaio poético, um pensamento filmado, um álbum biográfico sobre Vinicius de Moraes, o homem vertiginoso. Chama-se "Vinicius", co-produzido com sua filha Suzana e dirigido por Miguel Faria Jr., durante três anos de torturadas pesquisas e reflexões para retratar a apaixonada busca do poeta por uma felicidade não conformada, pela conquista de um êxtase, de uma plenitude que ele mesmo desconhecia. Jorge Peregrino, o presidente da UIP, me segreda: "É um arrasa-quarteirão". Isso mesmo: quem conhece a relação cinema-público, quem já sofreu a angústia da comunicação tela-olho percebe que há um feitiço raro, um mistério nesse filme de Miguel que provoca em nós uma intensa ligação amorosa, que faz muita gente sair chorando e rindo, querendo ver de novo. Por quê? Vamos tentar entender esse mistério. O filme tem sacanagem? Não. Tem violência? Não. Suspense e efeitos especiais, corrida de carros, tiros e porrada, princípio, meio e fim? Não. Nada disso. No entanto, tem uma alma líquida, um fluido que corre entre as imagens que tocam o espectador como um contato físico, um beijo.

Uma das chaves do segredo é o tema. Vinicius de Moraes é o herói de duas décadas do grande mito de felicidade do Brasil: Ipanema dos anos 50, 60, a época que começa em JK e vai até 64, com o golpe militar que mudou o rumo do país. Íamos numa direção e entramos num desvio, onde até hoje estamos.

O filme mostra um passado que poderia ser nosso presente. Ipanema era uma ilha de felicidade num país injusto, mas foi um momento raro em que o desejo e o projeto pareciam se encontrar, numa harmonia entre a praia, o bar, as ruas com amendoeiras, ruas calmas onde a música, o Cinema Novo, a literatura floresceram, antes do início da massificação. Tom Jobim disse uma vez: "O Brasil só será feliz quando for uma grande Ipanema". Estranhamente, o Cinema Novo nunca captou esta felicidade e esta esperança. Apenas um grande filme foi feito sobre esta época: "Todas as mulheres do mundo", de Domingos de Oliveira, um clássico romântico, que nosso ideologismo neurótico sabotou na época. "Garota de Ipanema", de Leon Hirzsman, fracassou, pois Leon (grande cineasta) não conseguiu amar a beleza "pequeno-burguesa" e fez um filme "contra a alienação" de Ipanema. Só podíamos criticar, não conseguíamos louvar nada, nesses tempos ideológicos. Assim, faltava um testemunho dessa época de ouro, e ele veio agora, 30 anos depois, neste filme de Miguel Faria. Só agora o cinema mostra essa delicadeza perdida. Viver em Ipanema era uma experiência artística e política. Estávamos em plena utopia antes da chegada do mundo real em 64; antes do pesadelo, tivemos um sonho. Vivíamos em um espaço-tempo em que o amor estava se reinventando, sexualizado, abençoado com o surgimento da pílula e com o brilho mágico do psicodelismo. Ir à praia era um ato político. Ver o pôr-do-sol era um comício. A felicidade não teria fim, e a tristeza, sim. No entanto, não éramos políticos de traços duros, de luta, panfletos e fábricas; era uma política poética, soft , romântica. As casas viviam de portas abertas, onde se fazia música pela madrugada, onde se discutia literatura e revolução, época querida quando as namoradas começaram a "dar". Sexo era política. Eu me lembro de dizer a uma namorada que nosso amor era uma forma de luta contra o imperialismo.

Havia uma harmonia unindo Ipanema e a vida que levávamos. A arte não era uma exceção num mundo de pagodes e boçalidade. A arte era buscada, importante, traçava uma esperança; cada música composta, cada filme, nos parecia um crescimento histórico, uma sedimentação de verdades. Não sabíamos que um sórdido futuro já se tramava, debaixo de nossa euforia. Ainda éramos "modernistas" e a vida tinha um sentido. Ipanema era o caminho. E a vida de Vinicius era exemplar. Ninguém viveu assim. Vinicius era um herói existencial, um guerreiro com os pés no existencialismo do pós-guerra, acreditando em liberdade e projeto. Vinicius era um símbolo da coragem da solidão, do inconformismo, da recusa a vida burocrática. Quando ele largou o Itamaraty, desisti de fazer diplomacia, entrei para o Partido Comunista e virei cineasta.

Neste filme, vemos Vinicius nascer e amar até o fim. Sua vida parece um imenso travelling onde flutuam as mais lindas mulheres do Rio lendário que ele amou com paixão, com um ardor romântico que não conhecemos mais, hoje, nesses "acasalamentos" rápidos das revistas. O amor era eterno, mesmo se esfumando em brumas e espumas e nele tentávamos tocar alguma coisa infinita e plena, tão possível como a "revolução".

Vemos nos rostos dos atores geniais do filme, Ricardo Blat e Camila Morgado, uma fé da época, dizendo as poesias como se rezassem pela vida, vemos na extraordinária fotografia de Lauro Escorel e na direção de arte de Marcos Flaksman que eles recriaram a luz e o espaço de uma utopia lírica.

Aí, decifro outro mistério do intenso feitiço deste filme: o tempo. O tempo era outro, e me refiro a tempo como ritmo, timing . Movíamo-nos em outro ritmo, andávamos em paisagens claras, com perspectiva, percorríamos distâncias nítidas, andávamos pela praia até o Leblon. O mundo estava em foco e não era esse sumidouro de hoje. "Vinicius" não é um filme feito "hoje" sobre "antes". É um filme daquele tempo que vem nos tocar agora. O tempo do filme de Miguel é o tempo de antes. E, ao vê-lo, parece que tínhamos um futuro naquele passado, e temos a chance de sentir de novo o vento, a brisa e as batidas do mar de Ipanema.






Com depoimentos comoventes e curiosos de amigos e grandes personalidades brasileiras como Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Tônia Carrero, Toquinho, Carlos Lyra, Antônio Candido, Edu Lobo, Francis Hime e Miúcha, o longa traz interpretações de Camila Morgado – que se destacou por seu trabalho na minissérie “A Casa das Sete Mulheres” – e de Ricardo Blat, ator com sólida formação teatral e que realizou diversos trabalhos no cinema e na TV, como por exemplo na minissérie global “Hoje É Dia de Maria”.
O show, o ponto de partido do longa, conta com grandes músicos da MPB – Adriana Calcanhoto, Olívia Byington, Zeca Pagodinho, Yamandú Costa, Renato Braz, Mônica Salmaso, Mariana de Maraes, Sergio Cassiano, MS Bom, Nego Jeif, Lerov e Mart´Nália – interpretando grandes sucessos musicais de Vinicius.
Nascido em 1913 no Rio de Janeiro de família de classe média, Vinicius de Moraes foi testemunha e personagem de importantes transformações na cidade e desenvolveu um dos percursos mais originais e fecundos da cena cultural brasileira do século XX. Um dos exemplos foi em 1956, em que ousou reunir a cultura erudita e popular em Orfeu da Conceição, obra que garantiu Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1956, bem como o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Sua “Garota de Ipanema”, em parceria com Tom Jobim é uma das músicas mais tocadas em todo o mundo, em todos os tempos.
O longa não restrige apenas à vida artística de Vinicius, sua vida pessoal, marcada por muitas paixões, nove casamentos e amizades duradouras, também é retratada por raridades em arquivos, depoimentos de amigos e familiares.
A montagem de um show é o ponto de partida para a reconstituição de uma trajetória sem paralelos no cenário cultural do país. A Vida, os amigos, os amores de Vinicius de Moraes, autor de mais de 400 poesias e cerca de 400 letras de música. A essência criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio de Janeiro através de raras imagens de arquivo, entrevistas e interpretação de muitos de seus clássicos.

Vinícius – Miguel Faria Jr

sábado, 22 de setembro de 2012

O palhaço entra no hospital - Wellington Nogueira

 

                              O palhaço entra no hospital

quarta-feira, junho 15th, 2011
 
“Tal qual o circo, o movimento de vida do palhaço é incessante e se revela uma eterna busca: onde vou meter meu nariz agora? Em que outro lugar posso entrar? De que forma?
É óbvio que ele não se pergunta racionalmente essas questões, pois esse é um movimento involuntário inerente ao seu ser, assim como as batidas do seu coração. É sua sina, seu destino, sua missão, a razão pela qual sua espécie evolui. Exatamente por isso ele não se pergunta se deve ou não ir; ele vai. E assim, o conhecimento tácito dos bobos vai ecoando, buscando quem esteja aberto a escutá-lo.

Em 1986, Michael Christensen – que além de ator e palhaço é co-fundador do Big Apple Circus, considerando um dos cinco melhores do mundo – foi convidado a fazer uma apresentação para as crianças da Cardiologia Pediátrica do Columbia Presbyterian Babies’ Hospital. Ele aceitou o convite, mas depois pensou: “Caramba, eu nunca me apresentei para uma plateia como essa, o que é que eu vou fazer?”.
Foi aí que ele conheceu o hospital e teve a ideia de se apresentar como médico. Todo mundo ficou meio reticente, afinal não se sabia como os médicos reagiriam ao ver um palhaço se passando por médico, mas o chefe da Pediatria entrou na brincadeira e apresentou Michael a seus parceiros como “grandes professores eméritos da arte chamada Medicina”. Quando entrou em cena, todos acharam aquele médico um pouco estranho. Dois minutos de apresentação depois, todo mundo tinha a certeza de que o homem era completamente estranho, porque ele apresentou para aquelas crianças suas inovações na Medicina:
Uma tranfusão de milkshake, um transplante de nariz vermelho, um colega desnutricionista – que ensinou as crianças a classificar grupos alimentares entre pipoca, pizza, chocolate e cerveja.
O sucesso da apresentação foi tão grande que eles foram convidados a visitar outras crianças e por onde passaram ocorreu uma transformação, uma mudança de comportamento significativa entre os pacientes, os pais, as enfermeiras e… os médicos. E o hospital continuou convidando Michael para voltar, para voltar, para voltar – e, dessa forma, começou o que hoje conhecemos como o The Big Apple Circus Clown Care Unit.”
Trecho extraído do livro “Doutores da Alegria – O lado invisível da vida”, de Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria.

Os doutores da alegria - documentário de Mara Mourão



                                                    OS DOUTORES DA ALEGRIA

Sempre gostei de documentários. Assim como gosto de biografias. Acho que o que as pessoas fazem com esse tempo que nos é dado – algumas vezes conquistado – para viver define muitas coisas. Define, por exemplo, qual é a magia de toda essa história chamada vida. Para que, afinal, você vive? Mas documentários, claro, não tratam apenas da vida das pessoas, mas de realidades pelas quais elas passam – voluntariamente ou não. Gosto de filmes sobre realidade que “simplesmente” mostra o que acontece, no melhor sentido de “documentar” os fatos. Mas, claro, sabemos que qualquer narrativa é uma eleição… sendo assim, mesmo o mais “fiel” dos documentários significa apenas uma parte da verdade, uma forma de narrar o que acontece – assim como o jornalismo. Gosto também de filmes que declaradamente fazem um “discurso” crítica da realidade – como os do Michael Moore – ou que, de outra forma, nos interpretam uma realidade que parecia já devidamente contada (mas, agora, com outra ótica). É difícil um documentário qualquer não me fascinar. Realmente gosto do gênero. Mas tem filmes que vão um pouco além da média e realmente emocionam, marcam, fazem pensar sobre as escolhas que as pessoas fazem e como isso pode “modificar” o mundo – nem que for, pelo menos, o “interno”. Um filme já meio “antiguinho” e que vi só agora fez isso comigo: Doutores da Alegria. Uma bela peça documental e de cinema.
A HISTÓRIA: A diretora e roteirista Mara Mourão e sua equipe contam a história do projeto Doutores da Alegria Brasil, formado por atores e coordenado por Wellington Nogueira. As filmagens foram realizadas durante sete semanas em diversos hospitais de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde o projeto está sendo desenvolvido por mais tempo, além de distintos cenários destas cidades durante a fase de entrevistas. Doutores da Alegria existe no Brasil desde 1991 por iniciativa de Nogueira, que trouxe a idéia “importada” de Nova York, onde morava e trabalhava como ator na Broadway e demais espaços para a arte naquela cidade. O filme conta a história de como o projeto “migrou” para o Brasil e de como os atores desenvolvem seu trabalho nos hospitais, lidando diariamente com crianças doentes – algumas em estado terminal -, com seus familiares, médicos e equipe de enfermagem. Mais que mostrar o projeto, o filme reflete sobre a figura do palhaço, o trabalho do ator, a improvisação, a vida e a morte.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Doutores da Alegria): Criança em filme normalmente emociona. Criança sofrendo, por doença ou outra forma de “punição”, ainda mais. Se isso é uma regra para filmes em geral, se torna especialmente verdade quando falamos de documentários. Mas o que realmente emociona em Doutores da Alegria não é tanto as cenas com crianças – ainda que isto é o que ocupa a maior parte do tempo da produção -, mas as histórias que aqueles atores nos contam, suas reflexões e suas inquietudes. Assim como sua alegria por fazer um trabalho tão bonito. Algo contagiante, realmente.
Digo isso tudo porque é CLARO que algumas cenas com crianças emocionam, e muito. Mas eu ouso dizer – não me joguem pedras! – que estas cenas são de “emoção fácil”, como quando cai uma bomba em determinado bairro judeu que mata um menino que estava, até aquele momento, jogando bola na igreja semi-destruída. Ok, é o “ápice” da história, a hora em que você “deve” chorar. Mas e todos e os outros momentos do filme? O que eu gostei em Doutores da Alegria é que o filme não foge de cenas realmente impressionantes com crianças, como aquela do menino sentado na cama que dança junto com os palhaços perto do final e, ainda assim, ele se torna realmente emocionante por aquilo que as pessoas dizem, sobre o que elas pensam e sentem sobre aquilo que se vê.
Me emocionei com muitas cenas. Desde aquela em que Wellington Nogueira fala de seu pai e do seu “mérito”, até a história do duende e do menino ou da despedida de um pai de seu filho. Amei muitos depoimentos de atores/palhaços, mas em especial as falas de alguns. Fiquei arrepiada com o poder transformador que eles tem e com a sensibilidade de seus olhares. E acho, de verdade, que qualquer pessoa com amor e vontade pode fazer isso na profissão que for – ou, se você é um técnico em física quântica e não vê como pode ajudar as pessoas com isso, pelo menos pode reservar parte de seu tempo livre para fazer algo por alguém.
O bacana do filme, como eu disse antes, é que ele não fala apenas do projeto – ou seja, do trabalho de levar humor para crianças doentes nos hospitais. Mas ele trata, especialmente, sobre o olhar diferenciado destes atores e atrizes para com a arte, para com as crianças, para com a vida e a morte. Pela primeira vez tive uma visão ampliada do que é o trabalho de um palhaço – ou “clown”, como muitos gostam de citar no filme.
De todos os depoimentos, gostei de alguns em especial. Entre eles, o comentário de Paola Musatti (Dra. Manela) sobre os “tentáculos” que um palhaço precisa ter. Em outras palavras: como ele deve estar ligado em tudo o que acontece ao seu redor, conectado com todos os movimentos e com tudo que acontece para, daí sim, poder improvisar, fazer rir ou emocionar em conexão com o mundo ao redor que, nestes casos, parece contribuir para o seu trabalho – ou, como disse a atriz Danielle Barros (Dra. Leonoura), nestas horas o “universo” parece conspirar a favor do palhaço. E acho que isso não é por acaso… quando fazemos o bem sem esperar nada em troca, quando estamos atentos e com os tentáculos “espalhados” por aí, acho mesmo que o universo conspira a nosso favor. Isso vale para o trabalho dos Doutores da Alegria e para muitas outras partes da nossa vida.
Aliás, essa possibilidade de assistir o filme e ver um paralelo com a vida de qualquer um de nós é superinteressante. Realmente acho que muitas das reflexões que estão ali sobre o improviso, sobre a capacidade que as crianças e os palhaços tem de ver além do óbvio, sobre o uso de máscaras e demais histórias, podem sim ser aplicadas fora daquela experiência.
Ainda sobre o trabalho dos atores, achei interessante a fala de Luiz Fernando Bolognesi (Dr. Comendador Nelson) sobre a necessidade do “vazio” para poder criar – e o quanto isso é difícil de conseguir. A necessidade do vazio é muito interessante, porque no nosso modo de vida moderno atual é difícil conseguir isso, o “vazio” de idéias, sentimentos e afins. Mas para quem quer estar conectado com o que acontece ao redor, fatos e energias, sentimentos e possibilidades, é preciso treinar o vazio. Inclusive para sentir as demandas dos demais e conseguir responder a elas da melhor forma. Além das nossas próprias, é claro.
A atriz Thais Ferrara (Dra. Ferrara) teve algumas falas muito interessantes. Entre elas, a necessidade do ator em dar uma “rasteira no próprio ego” para poder fazer um trabalho realmente bom – importando-se menos com o seu “virtuosismo” e sua capacidade de improvisar e/ou criar e mais com a criança ou o adulto que tem na sua frente -; assim como quando comenta sobre a busca deles de uma “qualidade do riso” – ao invés do riso fácil, conseguido muitas vezes à custa da agressão ou da chacota.
Gostei quando a atriz Beatriz Sayad (Dra. Valentina) comenta que tudo para o doente é forçado, mas que o palhaço não pode e não deve ser… ou seja: que mais que todos ele deve saber ouvir um “não” e respeitá-lo. A vontade da criança está acima, novamente, de seu “virtuosismo”. Também gostei quando ela fala que eles buscam aprender a “subverter” o mundo com as crianças – quem dera que todos nós conseguíssemos fazer mais isso. Amei a sua versão de que o palhaço é aquele que não busca ter respostas, mas que se “contenta em brincar com as perguntas” – outra lição que eu e você deveríamos praticar mais.
Wellington Nogueira tem muitas declarações muito interessantes e bonitas. Destaco aquela em que ele fala sobre sobre o que une o palhaço e a criança: nenhum dos dois está limitado “a lógica ou a razão”… neste ponto eles falam sobre como nós, adultos, perdemos a capacidade de ver além do olhar. Para nós, cada vez mais o que vemos primeiro é o que vale. Enquanto para a criança e para o palhaço aquilo que se vê não é tudo… pode ser muito mais. O limite é a imaginação de cada um. Isso me fez pensar muito… sobre como a gente realmente vai ficando mais sério, vai perdendo o humor… como vai julgando e sendo julgado pela aparência, pelo que acredita ser a verdade através da imagem que se apresenta na nossa frente. Mas e quem disse que os olhos captam só a verdade? Ou toda a verdade? E os outros sentidos? E o que está além dos sentidos? Deveríamos reaprender a “olhar” de maneiras múltiples, ao invés de olharmos de forma tão básica. Eu tento fazer isso diariamente, mas nem sempre consigo.
Outra frase de Nogueira que eu gostei é de que os palhaços trabalham em parceria com os médicos. Enquanto os últimos olham para o lado ruim, para aquilo que precisa ser “curado” fisicamente no doente, os palhaços olham para o “lado bom que precisa ser incentivado”. Acho que isso é outro ponto de reflexão para a vida de qualquer um de nós. Quantas vezes eu e você não olhamos para tudo aquilo que nos falta, para o que está errado ao nosso redor, enquanto o que deveríamos realmente fazer é olhar para o “lado bom que precisa ser incentivado”.
A atriz Marina Quinan (Dra. Quinan) faz uma leitura bem interessante sobre o olhar do palhaço – que é o seu nariz vermelho – e sobre a “fabricação” destes olhares. Fala, na verdade, sobre como algumas máscaras estão aí só para chamar a atenção para pontos que queremos enquanto que, para os que olham atentamente, tudo o demais é o que importa – a máscara também serve para nos libertar. Ela também comenta como é importante a pessoa estar inteira “para trocar”, que não se pode ser desequilibrado ou louco para conseguir trocar experiências boas com alguém. Isso vale não apenas para os palhaços/atores do filme, mas para todos os encontros que temos durante a vida. Só existem boas trocas quando as pessoas estão com vontade e equilibradas para isso. Uma frase de Nogueira que achei ótima: “Em todos os lugares que seja preciso rever a nossa relação com o mundo um palhaço estará lá”. Tomara mesmo! Afinal, sobram lugares em que é preciso rever a nossa relação com o mundo.
NOTA: 10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: O documentário foi filmado em vários hospitais e institutos, citando: Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Hospital da Criança; Hospital do Mandaqui; Hospital Cândido Fontoura; Hospital Albert Einstein (todos em São Paulo); IPPMG – Hospital do Fundão (Rio de Janeiro).
Uma curiosidade: Doutores da Alegria teve as entrevistas filmadas em Super 16 mm e as demais cenas, ou seja, todas aquelas passagens nos hospitais e institutos, em DV Cam (ou seja, em formato digital).
Algo que me impressionou: a equipe de produção filmou nada mais, nada menos que 130 horas!!! Ou seja: eles tem um material bruto gigantesco sobre o trabalho dos Doutores da Alegria. E tudo isso para gerar pouco mais de 1 hora e meia de filme.
A trilha sonora do filme, lindíssima, é de autoria do músico e compositor Arrigo Barnabé.
O filme ganhou poucos prêmios – levando em conta que merecia muitos outros mais: foi o principal vencedor do (desconhecido) Festival de Cinema Brasileiro de Nova Iorque/Brazilian Festival of NY; ganhou os prêmios Especial do Júri e o do Júri Popular no Festival de Cinema de Gramado; e, para finalizar, o prêmio de Melhor Documentário no Paraty Cine.
Doutores da Alegria consumiu 33 dias de filmagens nos hospitais e outros 16 para as entrevistas com atores e médicos.
O projeto do Doutores da Alegria Brasil atualmente está imerso em 16 hospitais e institutos nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte. Além destes 16 locais, eles já trabalharam em outros oito hospitais – incluindo um em Campinas. Para saber mais sobre o trabalho deles, acesse seu site oficial.
Tecnicamente falando, gostei em especial do trabalho da diretora e roteirista Mara Mourão – que, quem diria, antes tinha dirigido o chato e previsível Avassaladoras -, que teve um olhar cuidadoso, atento e uma narrativa exata do projeto, equilibrando desde as informações sobre a arte como sobre a vida, assim como o humor e o drama. Aqui ela fala um pouco sobre o trabalho com o filme. Colaborou com ela no roteiro do filme Fernando Bolognesi. Também gostei muito do trabalho de montagem de Rodrigo Menecucci e da direção de fotografia de Helcio Alemão Nagamine. Um detalhe: em algumas cenas do filme dá para perceber como a equipe se “disfarçou” para conseguir um resultado mais realista nos hospitais. Eles se disfarçavam de palhaços também, assim como cobriam as câmeras com bonecos.
Para quem gosta de saber o nome de todos do elenco, aí segue os participantes por ordem alfabética: Morgana Masetti (psicóloga), Ângelo Brandini (Dr. Zorinho), Beatriz Sayad (Dra. Valentina), César Gouvêa (Dr. Cizar Parker), Cláudia Zucheratto (Dra. Zuzu), Danielle Barros (Dra. Leonoura), Ésio Magalhães (Dr. Zabobrim), Fernando Escrich (Dr. Escrich), Flávia Reis (Dra. Nena), Heraldo Firmino (Dr. Severino), Juliana Gontijo (Dra. Dona Juca Pinduca), Kleber Montanheiro (Dr. Krebs Croc), Luiz Fernando Bolognesi (Dr. Comendador Nelson), Marcio Ballas (Dr. João Grandão), Marina Quinan (Dra. Quinan), Paola Musatti (Dra. Manela), Pedro Pires (Dr. Dog), Raul Figueiredo (Dr. Lambada), Sávio Moll (Dr. Clóvis Socó), Soraya Saide (Dra. Sirena), Thais Ferrara (Dra. Ferrara) e Vera Abbud (Dra. Emily).

(Copiado do blog "Critica non sense da 7 arte "

sábado, 19 de maio de 2012

email de Lula Moura depois da sessão de Estamira



 Alex, Bel, Pessoal, boa noite

... depois de "Estamira", ainda estou aqui tentando achar o caminho de volta.
   Não consigo voltar.
  Já tentei enganar a galera aqui nesse canto, mas o eco do meu inconsciente repete que  aqui na estação Estamira dos caminhos de minha mente não tem lugar para "esperto-ao-contrário".

... se até o dia 8 de junho eu conseguir , prometo dar um pulo novamente ao "Cabo Canaveral" - SER.   Mas, por favor, dessa vez não me mandem pra tão longe...    Além-do-além, do meu interior...

Um beijo no coração de todos,
Lula Moura.

Meu pé esquerdo - trailer do filme



Cena de abertura do filme

                                                                  
                                                                        Trailer do filme

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Videoclube com duas sedes: na Tijuca e em Meriti



O Videoclube Nise da SIlveira funciona em dois locais diferentes. Na Tijuca, e em São João de Meriti. Nos dois espaços onde trabalho como médico e terapeuta. Na Tijuca, na SER, e em ão João no espaço CUBIÇA.
Acho muito importante levar esse tipo de espaço para discutir vida e saúde não só para a área "nobre" do Rio de Janeiro, mas também para Meriti, na baixada fluminense. Exatamente porque nessa área existe muita carência desse tipo de espaço que une cultura, lazer e saúde. Por isso essas duas "pernas" do projeto, atingindo uma população maior e mais diversificada.




Nise da Silveira encontra-se com Jung

Registro do encontro entre Nise da Silveira e Gustav Jung, criador da Psicologia Analít

Casa das Palmeiras - Frases de Nise da Silveira


Frases de Nise da Silveira

Palavras de Nise da Silveira, notas de Bernardo Horta e outras pessoas que freqüentavam o Grupo de Estudos no Museu de Imagens do Inconsciente, o Grupo de Estudos C. G. Jung, no Flamengo, a Casa das Palmeiras, em Botafogo, ou a residência dela. Era hábito de alguns amigos anotarem as palavras de Nise numa folha de papel, no livro ou em caderninhos.

Algumas destas palavras de NISE, possivelmente, já foram publicadas aqui no Blog.

“Todo mundo deve inventar alguma coisa, a criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a reestruturação da psique. O que cura, fundamentalmente, é o estímulo à criatividade.”

“É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade.”

“Para começar a estudar é preciso, de início, capinar. Capinar, capinar, capinar... Intensamente. Somente, após longo trabalho de capinação é que você poderá trocar o ancinho por um longo pente, e passá-lo sedosamente nos cabelos de uma mulher.”

“A contaminação psíquica é pior que piolho. Vai passando de uma cabeça para outra, numa rapidez incrível. E, como você sabe, todo mundo já pegou piolho.”

“Há no meu temperamento essa fúria. Quando eu quero uma coisa, eu insisto. Todo o dia, sem falta, eu levantava cedo, pegava o ônibus e ia trabalhar em Engenho de Dentro. Todo dia, todo dia... Nada me tirava daquele caminho.”

“Os gatos são os seres mais lindos, inteligentes e independentes do mundo. Essa é a razão por que os homens tem tanta dificuldade de se relacionar com eles e os perseguem indiscriminadamente desde o início dos tempos.”

“Desprezo as pessoas que se julgam superiores aos animais. Os animais tem a sabedoria da natureza. Eu gostaria de ser como o gato: quando não se quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não tem papo.”

“Eu me sinto bicho. Bicho é mais importante que gente. Pra mim o teste é o bicho, se não passar por ele, não tem vez. Freud disse que quem pensa que não é bicho, é arrogante.”

“Porque passei pela prisão, eu compreendo as pessoas e os animais que estão doentes, pobres, que sofrem. Eu me identifico com eles. Sinto-me um deles.”

“Só os loucos e os artistas podem me compreender.”

“A pesquisa e o estudo a partir das vertentes imagísticas estão apenas começando. Somente o ponto do iceberg despertou. A partir do século XXI, os interessados neste assunto devem se dedicar intensamente, pois, das imagens surgirão não só revelações sobre o corpo psicológico e físico, como descobertas das potencialidades mentais dos seres humanos. As descobertas futuras sobre o inconsciente revolucionarão a história da raça humana.

“Madame Adelaide Sechehaye. Ela me disse: ‘Só se pode progredir pelo prazer’, meu encontro com ela foi um grande prazer.”

“Há beleza na vida, há beleza em tudo. Vocês veem?... Há beleza na alegria, e mesmo na saudade, na tristeza, no sofrimento e até na partida, há beleza. A vida é uma beleza.”

“O Laing era um gato.”

“Todo mundo deve inventar alguma coisa, a criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a reestruturação da psique. O que cura, fundamentalmente é o estímulo à criatividade. Ela é indestrutível. A criatividade está em toda parte.”

“Quando descobri a unidade da matéria e da energia, uma coisa se transformou na outra; minha vida mudou.”

“Em minhas buscas e incursões, ao mergulhar nos dinamismos da psique, o fato de maior importância foi o encontro com a psicologia de Carl Gustav Jung.”

“Encontrei na psicologia de Jung e nas obras deste mestre o meu melhor instrumento de trabalho.”

“Não se iludem, Jung não está aqui na biblioteca do Flamengo, Carl Gustav Jung está no Museu de Imagens do Inconsciente, em Engenho de Dentro. Quem quiser vê-lo de perto vá até lá.”

“Vocês aí, por favor! Não me venham com jargões psiquiátricos! Isso aqui é o Grupo de Estudos C.G. Jung, um Grupo sério.”

“Não há uma só Grande Mãe - há milhares. Existem várias denominações, todas se referindo a um mesmo arquétipo.”

“A obra de arte para Freud fundamenta-se nos condicionamentos individuais do criador, e o Jung encara a obra de arte como uma produção superpessoal.”
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Um amigo sobre Nise: “Nise uma universidade, alma de artista. Agregava talentos sem linha divisória, separação.”

O poder das imagens



Por que um Videoclube ?????????

A ideia principal que fundamenta o projeto "Videoclube Nise da Silveira" é a força das imagens. Elas comunicam muito mais que as palavras, e atingem nossa compreensão de forma diferente do que as ideias podem fazer. Acredito que junto com as ideias, tem a força das histórias, sua capacidade de nos sensibilizar, de ampliar nossa humanidade, conhecer outras experiências, reconhecer nelas coisas que já conhecemos e outras que jamais imaginamos.
Mas além  das imagens e das histórias, a proposta de um videoclube aposta suas fichas na importância do trabalho em grupo. A profundidade e a diversidade de opiniões e impressões sobre cada obra permite um sem número de possibilidades novas de interpretar e mesmo de compreender os enredos e as ideias veiculadas.

             Outro aspecto importante foi minha experiência pessoal de descoberta e crescimento através da arte. O teatro, o cinema, a literatura e a música foram ingredientes especiais para que eu me tornasse quem sou hoje, fermento para meu crescimento. Enxergo a arte, através de seu estímulo à sensibilidade, como um auxiliar precioso no trabalho de saúde visto de uma forma holística: que compreende saúde como busca de uma visão maior, mais ampla da vida e da existência humana. A doença denuncia nossa estreiteza de visão, nossa cegueira diante do que nos faz crescer e ser saudável, e do que nos paralisa e diminui.

Como disse Nise da Silveira:
 “A pesquisa e o estudo a partir das vertentes imagísticas estão apenas começando. Somente o ponto do iceberg despertou. A partir do século XXI, os interessados neste assunto devem se dedicar intensamente, pois, das imagens surgirão não só revelações sobre o corpo psicológico e físico, como descobertas das potencialidades mentais dos seres humanos. As descobertas futuras sobre o inconsciente revolucionarão a história da raça humana."

Trailer de ESTAMIRA


Videoclube em Meriti - Meu pé esquerdo


Videoclube Nise da Silveira estreia no Espaço Cubiça, em São João de Meriti na Baixada Fluminense

 Meu pé esquerdo (My left foot)


                Em 28 de Abril de 2012, estreiou o Videoclube Nise da Silveira no Espaço Cubiça, em São João de Meriti. Foi uma tarde chuvosa, e como era o primeiro evento desse tipo, tivemos relativamente pouco público. Mas somamos dez pessoas, interessadas e interessantes, que curtiram o evento , e que provavelmente devem voltar para os próximos. O filme foi um sucesso.  Assistimos a “Meu pé esquerdo”, de Jim Sheridan, e nos emocionamos com a história real da luta do personagem principal, Cristy Brown, e seu enorme esforço de superação. Mostra também a importância do apoio familiar em seu processo. Destaque absoluto para a personagem da mãe do personagem, exemplar no cuidado, sensibilidade e respeito com que lida com os desafios que foram surgindo na vida de seu filho.



                Depois da sessão, o lanche acompanhou nossa conversa sobre o filme. Criamos um ambiente bastante descontraído onde foi possível falar e ouvir sem pressa, todos bastante emocionados e sensibilizados pelo filme que tínhamos acabado de ver.
                Em um local onde diversas pessoas se tratam e lutam por saúde, exemplo tão contundente de resiliência cria inspiração, e fortalece a todos mostrando como o ser humano é capaz de superar enormes obstáculos, e de como muitas vezes o impossível acontece. A vontade humana, seu desejo de superar-se e alcançar seus objetivos é uma força enorme, da qual não tem os consciência. "Querer é poder" poderia resumir a ideia desse filme maravilhoso.
                  Em minha experiência como médico, tive o prazer e o orgulho de ser cúmplice desses processos de transformação radicais, em que vemos a lagarta livrando-se de suas cascas, deixando para trás suas couraças e receios, abrir asas e voar. Considero esse um dos maiores privilégios de minha profissão.
acredito que os filmes com suas histórias, e a arte em geral, podem ser coadjuvantes poderosos nesses processos de vir-a-ser, nessa aventura heroica de nos tornarmos nós mesmos.
               
                O Videoclube Nise da Silveira faz parte do Projeto Ludens, criado e desenvolvido pelo médico homeopata e arteterapeuta Alex Xavier que se propõe a promover debates ligados à saúde através do cinema, poesias, contos, música. A cada mês teremos uma atividade diferente, sempre aos sábados à tarde. Uma oportunidade de lazer saudável e um ponto de encontro de pessoas que querem cuidar de sua sensibilidade, alimentar sua alma, contaminar-se e alimentar-se com arte e transformação.