OS DOUTORES DA ALEGRIA
Sempre gostei de documentários. Assim como gosto de biografias. Acho
que o que as pessoas fazem com esse tempo que nos é dado – algumas vezes
conquistado – para viver define muitas coisas. Define, por exemplo,
qual é a magia de toda essa história chamada vida. Para que, afinal,
você vive? Mas documentários, claro, não tratam apenas da vida das
pessoas, mas de realidades pelas quais elas passam – voluntariamente ou
não. Gosto de filmes sobre realidade que “simplesmente” mostra o que
acontece, no melhor sentido de “documentar” os fatos. Mas, claro,
sabemos que qualquer narrativa é uma eleição… sendo assim, mesmo o mais
“fiel” dos documentários significa apenas uma parte da verdade, uma
forma de narrar o que acontece – assim como o jornalismo. Gosto também
de filmes que declaradamente fazem um “discurso” crítica da realidade –
como os do
Michael Moore – ou
que, de outra forma, nos interpretam uma realidade que parecia já
devidamente contada (mas, agora, com outra ótica). É difícil um
documentário qualquer não me fascinar. Realmente gosto do gênero. Mas
tem filmes que vão um pouco além da média e realmente emocionam, marcam,
fazem pensar sobre as escolhas que as pessoas fazem e como isso pode
“modificar” o mundo – nem que for, pelo menos, o “interno”. Um filme já
meio “antiguinho” e que vi só agora fez isso comigo:
Doutores da Alegria. Uma bela peça documental e de cinema.
A HISTÓRIA: A diretora e roteirista
Mara Mourão e sua equipe contam a história do projeto
Doutores da Alegria Brasil, formado por atores e coordenado por
Wellington Nogueira.
As filmagens foram realizadas durante sete semanas em diversos
hospitais de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde o projeto está sendo
desenvolvido por mais tempo, além de distintos cenários destas cidades
durante a fase de entrevistas. Doutores da Alegria existe no Brasil
desde 1991 por iniciativa de Nogueira, que trouxe a idéia “importada” de
Nova York, onde morava e trabalhava como ator na
Broadway
e demais espaços para a arte naquela cidade. O filme conta a história
de como o projeto “migrou” para o Brasil e de como os atores desenvolvem
seu trabalho nos hospitais, lidando diariamente com crianças doentes –
algumas em estado terminal -, com seus familiares, médicos e equipe de
enfermagem. Mais que mostrar o projeto, o filme reflete sobre a figura
do palhaço, o trabalho do ator, a improvisação, a vida e a morte.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes
que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso
recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Doutores da
Alegria): Criança em filme normalmente emociona. Criança sofrendo, por
doença ou outra forma de “punição”, ainda mais. Se isso é uma regra para
filmes em geral, se torna especialmente verdade quando falamos de
documentários. Mas o que realmente emociona em Doutores da Alegria não é
tanto as cenas com crianças – ainda que isto é o que ocupa a maior
parte do tempo da produção -, mas as histórias que aqueles atores nos
contam, suas reflexões e suas inquietudes. Assim como sua alegria por
fazer um trabalho tão bonito. Algo contagiante, realmente.
Digo isso tudo porque é CLARO que algumas cenas com crianças
emocionam, e muito. Mas eu ouso dizer – não me joguem pedras! – que
estas cenas são de “emoção fácil”, como quando cai uma bomba em
determinado bairro judeu que mata um menino que estava, até aquele
momento, jogando bola na igreja semi-destruída. Ok, é o “ápice” da
história, a hora em que você “deve” chorar. Mas e todos e os outros
momentos do filme? O que eu gostei em Doutores da Alegria é que o filme
não foge de cenas realmente impressionantes com crianças, como aquela do
menino sentado na cama que dança junto com os palhaços perto do final
e, ainda assim, ele se torna realmente emocionante por aquilo que as
pessoas dizem, sobre o que elas pensam e sentem sobre aquilo que se vê.
Me emocionei com muitas cenas. Desde aquela em que Wellington
Nogueira fala de seu pai e do seu “mérito”, até a história do duende e
do menino ou da despedida de um pai de seu filho. Amei muitos
depoimentos de atores/palhaços, mas em especial as falas de alguns.
Fiquei arrepiada com o poder transformador que eles tem e com a
sensibilidade de seus olhares. E acho, de verdade, que qualquer pessoa
com amor e vontade pode fazer isso na profissão que for – ou, se você é
um técnico em física quântica e não vê como pode ajudar as pessoas com
isso, pelo menos pode reservar parte de seu tempo livre para fazer algo
por alguém.
O bacana do filme, como eu disse antes, é que ele não fala apenas do
projeto – ou seja, do trabalho de levar humor para crianças doentes nos
hospitais. Mas ele trata, especialmente, sobre o olhar diferenciado
destes atores e atrizes para com a arte, para com as crianças, para com a
vida e a morte. Pela primeira vez tive uma visão ampliada do que é o
trabalho de um palhaço – ou “clown”, como muitos gostam de citar no
filme.
De todos os depoimentos, gostei de alguns em especial. Entre eles, o comentário de
Paola Musatti
(Dra. Manela) sobre os “tentáculos” que um palhaço precisa ter. Em
outras palavras: como ele deve estar ligado em tudo o que acontece ao
seu redor, conectado com todos os movimentos e com tudo que acontece
para, daí sim, poder improvisar, fazer rir ou emocionar em conexão com o
mundo ao redor que, nestes casos, parece contribuir para o seu trabalho
– ou, como disse a atriz Danielle Barros (Dra. Leonoura), nestas horas o
“universo” parece conspirar a favor do palhaço. E acho que isso não é
por acaso… quando fazemos o bem sem esperar nada em troca, quando
estamos atentos e com os tentáculos “espalhados” por aí, acho mesmo que o
universo conspira a nosso favor. Isso vale para o trabalho dos Doutores
da Alegria e para muitas outras partes da nossa vida.
Aliás, essa possibilidade de assistir o filme e ver um paralelo com a
vida de qualquer um de nós é superinteressante. Realmente acho que
muitas das reflexões que estão ali sobre o improviso, sobre a capacidade
que as crianças e os palhaços tem de ver além do óbvio, sobre o uso de
máscaras e demais histórias, podem sim ser aplicadas fora daquela
experiência.
Ainda sobre o trabalho dos atores, achei interessante a fala de Luiz
Fernando Bolognesi (Dr. Comendador Nelson) sobre a necessidade do
“vazio” para poder criar – e o quanto isso é difícil de conseguir. A
necessidade do vazio é muito interessante, porque no nosso modo de vida
moderno atual é difícil conseguir isso, o “vazio” de idéias, sentimentos
e afins. Mas para quem quer estar conectado com o que acontece ao
redor, fatos e energias, sentimentos e possibilidades, é preciso treinar
o vazio. Inclusive para sentir as demandas dos demais e conseguir
responder a elas da melhor forma. Além das nossas próprias, é claro.
A atriz Thais Ferrara (Dra. Ferrara) teve algumas falas muito
interessantes. Entre elas, a necessidade do ator em dar uma “rasteira no
próprio ego” para poder fazer um trabalho realmente bom – importando-se
menos com o seu “virtuosismo” e sua capacidade de improvisar e/ou criar
e mais com a criança ou o adulto que tem na sua frente -; assim como
quando comenta sobre a busca deles de uma “qualidade do riso” – ao invés
do riso fácil, conseguido muitas vezes à custa da agressão ou da
chacota.
Gostei quando a atriz Beatriz Sayad (Dra. Valentina) comenta que tudo
para o doente é forçado, mas que o palhaço não pode e não deve ser… ou
seja: que mais que todos ele deve saber ouvir um “não” e respeitá-lo. A
vontade da criança está acima, novamente, de seu “virtuosismo”. Também
gostei quando ela fala que eles buscam aprender a “subverter” o mundo
com as crianças – quem dera que todos nós conseguíssemos fazer mais
isso. Amei a sua versão de que o palhaço é aquele que não busca ter
respostas, mas que se “contenta em brincar com as perguntas” – outra
lição que eu e você deveríamos praticar mais.
Wellington Nogueira tem muitas declarações muito interessantes e
bonitas. Destaco aquela em que ele fala sobre sobre o que une o palhaço e
a criança: nenhum dos dois está limitado “a lógica ou a razão”… neste
ponto eles falam sobre como nós, adultos, perdemos a capacidade de ver
além do olhar. Para nós, cada vez mais o que vemos primeiro é o que
vale. Enquanto para a criança e para o palhaço aquilo que se vê não é
tudo… pode ser muito mais. O limite é a imaginação de cada um. Isso me
fez pensar muito… sobre como a gente realmente vai ficando mais sério,
vai perdendo o humor… como vai julgando e sendo julgado pela aparência,
pelo que acredita ser a verdade através da imagem que se apresenta na
nossa frente. Mas e quem disse que os olhos captam só a verdade? Ou toda
a verdade? E os outros sentidos? E o que está além dos sentidos?
Deveríamos reaprender a “olhar” de maneiras múltiples, ao invés de
olharmos de forma tão básica. Eu tento fazer isso diariamente, mas nem
sempre consigo.
Outra frase de Nogueira que eu gostei é de que os palhaços trabalham
em parceria com os médicos. Enquanto os últimos olham para o lado ruim,
para aquilo que precisa ser “curado” fisicamente no doente, os palhaços
olham para o “lado bom que precisa ser incentivado”. Acho que isso é
outro ponto de reflexão para a vida de qualquer um de nós. Quantas vezes
eu e você não olhamos para tudo aquilo que nos falta, para o que está
errado ao nosso redor, enquanto o que deveríamos realmente fazer é olhar
para o “lado bom que precisa ser incentivado”.
A atriz Marina Quinan (Dra. Quinan) faz uma leitura bem interessante
sobre o olhar do palhaço – que é o seu nariz vermelho – e sobre a
“fabricação” destes olhares. Fala, na verdade, sobre como algumas
máscaras estão aí só para chamar a atenção para pontos que queremos
enquanto que, para os que olham atentamente, tudo o demais é o que
importa – a máscara também serve para nos libertar. Ela também comenta
como é importante a pessoa estar inteira “para trocar”, que não se pode
ser desequilibrado ou louco para conseguir trocar experiências boas com
alguém. Isso vale não apenas para os palhaços/atores do filme, mas para
todos os encontros que temos durante a vida. Só existem boas trocas
quando as pessoas estão com vontade e equilibradas para isso. Uma frase
de Nogueira que achei ótima: “Em todos os lugares que seja preciso rever
a nossa relação com o mundo um palhaço estará lá”. Tomara mesmo!
Afinal, sobram lugares em que é preciso rever a nossa relação com o
mundo.
NOTA: 10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: O documentário foi filmado em
vários hospitais e institutos, citando: Instituto da Criança do Hospital
das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo;
Hospital da Criança; Hospital do Mandaqui; Hospital Cândido Fontoura;
Hospital Albert Einstein (todos em São Paulo); IPPMG – Hospital do
Fundão (Rio de Janeiro).
Uma curiosidade: Doutores da Alegria teve as entrevistas filmadas em
Super 16 mm e as demais cenas, ou seja, todas aquelas passagens nos
hospitais e institutos, em DV Cam (ou seja, em formato digital).
Algo que me impressionou: a equipe de produção filmou nada mais, nada
menos que 130 horas!!! Ou seja: eles tem um material bruto gigantesco
sobre o trabalho dos Doutores da Alegria. E tudo isso para gerar pouco
mais de 1 hora e meia de filme.
A trilha sonora do filme, lindíssima, é de autoria do músico e compositor
Arrigo Barnabé.
O filme ganhou poucos prêmios – levando em conta que merecia muitos
outros mais: foi o principal vencedor do (desconhecido) Festival de
Cinema Brasileiro de Nova Iorque/Brazilian Festival of NY; ganhou os
prêmios Especial do Júri e o do Júri Popular no Festival de Cinema de
Gramado; e, para finalizar, o prêmio de Melhor Documentário no Paraty
Cine.
Doutores da Alegria consumiu 33 dias de filmagens nos hospitais e outros 16 para as entrevistas com atores e médicos.
O projeto do Doutores da Alegria Brasil atualmente está imerso em 16
hospitais e institutos nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e
Belo Horizonte. Além destes 16 locais, eles já trabalharam em outros
oito hospitais – incluindo um em Campinas. Para saber mais sobre o
trabalho deles, acesse seu
site oficial.
Tecnicamente falando, gostei em especial do trabalho da diretora e
roteirista Mara Mourão – que, quem diria, antes tinha dirigido o chato e
previsível Avassaladoras -, que teve um olhar cuidadoso, atento e uma
narrativa exata do projeto, equilibrando desde as informações sobre a
arte como sobre a vida, assim como o humor e o drama.
Aqui
ela fala um pouco sobre o trabalho com o filme. Colaborou com ela no
roteiro do filme Fernando Bolognesi. Também gostei muito do trabalho de
montagem de
Rodrigo Menecucci e da direção de fotografia de
Helcio Alemão Nagamine.
Um detalhe: em algumas cenas do filme dá para perceber como a equipe se
“disfarçou” para conseguir um resultado mais realista nos hospitais.
Eles se disfarçavam de palhaços também, assim como cobriam as câmeras
com bonecos.
Para quem gosta de saber o nome de todos do elenco, aí segue os
participantes por ordem alfabética: Morgana Masetti (psicóloga), Ângelo
Brandini (Dr. Zorinho), Beatriz Sayad (Dra. Valentina), César Gouvêa
(Dr. Cizar Parker), Cláudia Zucheratto (Dra. Zuzu), Danielle Barros
(Dra. Leonoura), Ésio Magalhães (Dr. Zabobrim), Fernando Escrich (Dr.
Escrich), Flávia Reis (Dra. Nena), Heraldo Firmino (Dr. Severino),
Juliana Gontijo (Dra. Dona Juca Pinduca), Kleber Montanheiro (Dr. Krebs
Croc), Luiz Fernando Bolognesi (Dr. Comendador Nelson), Marcio Ballas
(Dr. João Grandão), Marina Quinan (Dra. Quinan), Paola Musatti (Dra.
Manela), Pedro Pires (Dr. Dog), Raul Figueiredo (Dr. Lambada), Sávio
Moll (Dr. Clóvis Socó), Soraya Saide (Dra. Sirena), Thais Ferrara (Dra.
Ferrara) e Vera Abbud (Dra. Emily).
(Copiado do blog "Critica non sense da 7 arte "