sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Manoel de Barros, o encanto de descobrir

O Encanto de Descobrir Manoel de Barros
Por Hubert Alqueres
Premiado como melhor filme documentário na edição 2009 do Festival Paulínia de Cinema, Só dez por cento é mentira tem conquistado elogios e aplausos por onde passa. Não é para menos. Pedro Cézar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense, respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Elogiado por Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, sua obra é simples, moderna, repleta de originalidade e busca inspiração na infância e nas coisas corriqueiras e “desimportantes” do mundo.
Making of 12 Só Dez Por Cento é Mentira
Ele faz releituras, dá novas dimensões a objetos, traquitanas e “inutensílios”, valoriza personagens que encantam com sua simplicidade. O “absurdo verossímil que a gente vê no mundo infantil” nas palavras do diretor Pedro Cézar. A noção de verdade e invenção começa pelo título do filme, que se refere a como Manoel de Barros vê sua obra: “noventa por cento é invenção; só dez por cento é mentira”. E segue com uma explicação poética: “A invenção é um negócio profundo. Serve para aumentar o mundo”. Aos 93 anos, diz que até hoje só teve infância e, portanto, escreve “apenas” sobre ela. Depois dos 70, entrou no que chama de “terceira infância” e passou a produzir cada vez mais. E o filme mostra que continua vendo o mundo com olhar encantado, certo de que cada objeto não se limita ao seu significado literal: “as coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis.”
Declara ser poeta em tempo integral: “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde...” e escreve sobre as limitações do homem: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito”. E, talvez por isto, o filme se declare como sendo uma “desbiografia” do poeta e faça o elogio do “des-herói”, termo do autor para qualificar personagens que estão na contramão do convencional, a exemplo de Charles Chaplin - um vagabundo, um “herói ao contrário”.
O resultado é um mergulho estético na obra de Manoel de Barros. A fotografia e a música, onde predomina a viola, trazem a lembrança do Brasil profundo. As imagens são poéticas, frases e poemas do escritor são colocados na tela, como nos cadernos que ele mesmo confecciona e escreve a lápis, “em caligrafia miúda”. Fica evidente o esforço, lapidação e paciência com que lida com sua poesia.
Lá estão também os depoimentos de outros autores, cineastas atores, artistas plásticos e amigos da paisagem pantaneira que se transformaram em personagens de seu rico imaginário. E há, principalmente, o depoimento do próprio Manoel de Barros, que é conhecido por evitar exposição na mídia. Famoso por conceder entrevistas somente via correspondência, Manoel resistiu a autorizar a gravação de seus depoimentos. Para Pedro Cézar, “ele não nega contato com as pessoas. Só não gosta de ser registrado oralmente”, e reforça: “ele sempre recebe gente em sua casa, conversa numa boa. Só pede para que não seja gravado”. Afinal, “poesia não é para descrever, é para descobrir”, diz o poeta, enfatizando que ela pode estar em qualquer canto, bastando apenas preparar o olhar e, na tela surge mais uma crença sua: “poesia não é para compreender, poesia é para incorporar”.
O cineasta só conseguiu fazer a entrevista porque, depois de muito insistir, afirmou que era melhor deixar para lá, afinal o desejo de fazer o filme era “só um sonho”. O velho poeta, sabedor da importância dos sonhos, se rendeu e o documentário pôde virar realidade. “Venha amanhã bem cedo, pode fazer as perguntas. Se eu me interessar, eu respondo”. Respondeu a todas e Pedro Cézar soube aproveitar a oportunidade ao máximo.
Cenas inspiradas, manchas nas paredes sujas que se transformam em desenhos cheios de significado e lirismo. Pneus que, dos carros e das fábricas, vão parar nas mãos de garotos que os utilizam como balanços, brincam com suas bóias num lago ou as atiram de um para o outro num final de tarde, ao “lusco fusco”, momento mágico que sempre confunde como essa poesia, que desvenda novas leituras em matérias cheias de disfarce, muitas vezes quase que dissimuladas. Um filme que honra a qualidade do biografado e traz a magia e o encantamento da arte de se fazer cinema.

"Como estrelas na terra" - Criando condições à liberdade

COMO ESTRELAS NA TERRA


Uma lousa de sala de aula preenchida por números e letras misturados e, na frente dela, professoras típicas anunciando as notas de seus alunos. Aqueles que tiveram bom desempenho ganham um sorriso de satisfação, e aquele que sempre vai mal recebe uma expressão de decepção.

Assim inicia-se o filme que nos mostra, através da história de um menino com dislexia, o sofrimento pelo qual uma criança em idade escolar pode passar, cercada de pessoas incapazes de entender o que se passa com um outro, especialmente quando este é uma criança.  

"Como Estrelas na Terra” é dirigido pelo, até então, ator e produtor Aamir Khan, que impressiona pela qualidade, criticidade e sensibilidade do filme, no qual atua como o professor substituto Ram Shankar Nikumb. Embora a história seja focada em uma criança em especial, o filme mostra as negligências, falta de cuidado e de atenção com a maioria das crianças. Em especial, mostra o real papel do educador para a formação de um novo ser. 
       
Diferente da maior parte do cinema indiano, as músicas neste filme não são apenas para promoção do mesmo, mas uma parte importante da construção deste, sendo inseridas na historia quase como nos dizendo o que as situações representam, sem as cenas de dança típicas do cinema bollywoodiano - nome dado à indústria de cinema hindi, a maior indústria de cinema indiana, em termos de lucros e popularidade, cujo nome se deve à fusão de Bombaim (antigo nome de Mumbai, onde se localiza a indústria) e Hollywood (indústria cinematográfica americana).

 Sendo diferente de todas as outras pessoas, o menino Ishaan – protagonista do filme - sempre arranja confusão, mas por não estar dentro do mundo deles, consegue enxergar coisas que os outros deixam passar despercebidas. 

  A primeira música do filme nos mostra exatamente isso, ao criticar o ritmo de vida pré-moldado e frenético da família de Ishaan - que enfrenta diariamente uma “luta maluca para chegar a um destino”. Em oposição a isso, as crianças “não são escravas do tempo, são livres, tem reuniões com as borboletas e debates com as árvores.” 

Mas não é isso o que a sociedade espera delas, como vemos com a mãe do menino, que, mecanicamente, assume o papel de tirá-lo desse estado, procurando adaptá-lo para a vida no mundo dito real, o do trabalho, com horários marcados.     
   
Na escola, vemos a religião impondo regras e organização utópicas, sem levar em consideração as crianças, que não escutam, muito menos entendem, o que lhes dizem. No mesmo cenário, surge a professora enérgica que grita, impaciente, com os alunos que ela não enxerga.          

Ao ser ordenado a ler um texto, Ishaan responde que “As letras estão dançando”, e a professora acha que o aluno zomba dela. Tendo sua dificuldade ignorada, o garoto fica nervoso (como era de se esperar) e utiliza-se de ‘mal-comportamento’ para sair da situação. Não importa muito aqui o motivo pelo qual os professores fazem isso, mas sim o que acabam fazendo às crianças, que sempre pagam pela ignorância dos outros.          
 

Todos os outros alunos zombam de Ishaan, acabando por humilhá-lo, e, triste, o menino foge da escola à procura de liberdade, o que não encontraria naquele lugar. A música que se segue explicita o pensamento do menino: “Existem outros como eu? Não estou sozinho sonhando acordado, de olhos abertos?”
 

Para os pais, Ishaan é preguiçoso, desatento. O pai é agressivo, não percebe que ele é apenas uma criança e o quanto pode ser assustador para ele. Ambos os pais deveriam apoiar o menino, mas ficam nervosos, xingam, batem – não conseguem ver com os olhos do filho, apenas através dos seus.

Logo, Ishaan deverá mudar-se de escola, pois suas professoras dizem que ele não progride, erra de propósito e não se interessa pelas aulas. Mas a culpa é dele ou as aulas eram desinteressantes? Quem deveria fazê-lo se interessar e ajudá-lo a progredir? 

Frente ao “fracasso” do filho, os pais só conseguem pensar em si mesmos: o pai sente-se insultado por ter um filho chamado de retardado e a mãe, por sua vez, sente-se culpada, questionando-se sobre onde teria errado. Nenhum dos dois pensa em como o menino está se sentindo e o punem (colocando realmente a culpa pelo fracasso em Ishaan), mandando-o a um colégio interno, com o qual o menino tem pesadelos e implora para não ir. Ainda assim, ele não tem chances, pois está sozinho – sem alguém que possa entendê-lo.
 

As cenas em que Ishaan é deixado no colégio interno, ao som da música ‘Maa’, que significa mãe – uma das mais belas do filme –, mostram a dor e desencantamento do menino, ao se ver abandonado. “Sou tão ruim assim, mãe?”, ouvimos na canção que mostra os sentimentos de culpa e sofrimento pelos quais toda criança passa ao ser castigada por aqueles que mais ama.         

Toda criança passa por isso, ao apanhar dos pais – ou mesmo brigar com eles – e logo em seguida ser impulsionado a chorar no colo deles, afinal de contas não há a quem mais recorrer (são como o Deus que ama, e por isso pune, mas não deixa de merecer o amor do filho). 

O filme também destrói a crença de que a mãe sabe o que é melhor para o filho, mostrando que apenas o sentimento que se tem por este não é suficiente. Para criar uma criança do melhor modo é preciso ter conhecimento sobre o mundo, saber entender o outro e poder ajudar quando preciso, sabendo identificar necessidades e enxergar oportunidades.        
 

No colégio interno, a regra é disciplina. As crianças se adaptam ao sistema e apenas reproduzem o que lhes é dito, assim agradando aos ‘mestres’. “Lembre-se do que ele diz e imite-o”, sugere um colega de Ishaan, demonstrando o método com o qual é possível sobreviver ali (cenário idêntico às escolas tradicionais daqui – Brasil).       
 

 Ao longo dos dias, Ishaan ouve de todos ao seu redor (pai, mãe, professores, etc) a mesma opinião, de que é preguiçoso, desatento, incompetente... Ninguém busca compreender os motivos de seu comportamento, mas todos o julgam.       
 

“Por que você não consegue?”, berram os professores na música que se segue, onde vemos o desespero de Ishaan, que não consegue se adaptar ao sistema insano de obediência e repetição. Impossível não lembrar de “Another Brick In The Wall”, pelo tom agressivo com que as críticas à educação são feitas, com a diferença que, no filme em questão, os professores são quem têm a palavra, demonstrando toda a sua prepotência e arrogância frente ao papel de professores.
 

Longe da família e ridicularizado no novo ambiente, Ishaan torna-se apático, vazio. A vivacidade, alegria e curiosidade que o levavam a produzir ricos desenhos e pinturas, agora são substituídos pela tristeza do abandono, pela decepção, em especial com a atitude da mãe, pela repressão e autoritarismo que agora lhe são contínuos, sem ter para onde fugir.  

Anestesiado, o menino parece entrar em um ciclo autodestrutivo – não estando descartadas as possibilidades de suicídio ou abandono social – e não se dá conta de que poderia obter ajuda do novo professor que se apresentava de modo diferente, dizendo aos alunos que a partir de então, em sua aula, estavam livres.         

Este professor, Ram Shankar Nikumb, vindo de uma escola de crianças especiais, tem uma outra visão do ensino, que olha para o aluno e atende às suas necessidades, bem como abre novos caminhos. Os outros professores dizem-lhe, por sua vez, que seus métodos não funcionariam ali, onde as crianças eram preparadas para a “batalha da vida”.         
 

“Crianças têm de competir, fazer sucesso, vencer”, diz um dos professores, que deveria ser um profissional apto a lidar com as diferenças e mostrar que as coisas mais importantes não consegue-se passando por cima de ninguém, mas se obtém da própria vida. Mas ainda são poucos os professores que realmente sabem o valor e importância de sua profissão. 

Assume-se simplesmente o papel de adaptar as crianças ao mundo competitivo e alienante do trabalho – e achando que com isso estão contribuindo suficientemente para a formação dessas pessoas.   
 

Ram, diferente dos outros, olha para Ishaan e vê o que ninguém percebia, que “seus olhos berram por socorro”, e seu papel é ajudar o menino. Mas não é precipitado, antes busca analisar os cadernos, conversar com o único amigo de Ishaan e, inevitavelmente, procurar a família – essencialmente, busca entender quem é aquela criança.  

Ao som da música que dá título ao filme, vemos o professor Ram Nikumbh em contato com as crianças especiais e, em seguida, indo conversar com os pais de Ishaan. Antes de mostrar o papel do educador, o filme ensina, mais do que isso, o significado e as implicações de se ter um filho. O professor interpela os pais de Ishaan sobre as dificuldades do garoto, que para eles são apenas erros e indisciplina, e tenta mostrar-lhes que Ishaan não faz nada daquilo por ser preguiçoso ou burro, mas por ter dificuldade em entender as palavras e seus significados. O mal comportamento de Ishaan, explica aos pais, vem da dificuldade de admitir suas incapacidades: é mais fácil dizer “não quero”, ao invés de admitir que não consegue.          
 

O professor, então, depara-se com a dura realidade de que os pais não se importam que o filho esteja bem, mas que seja bem-sucedido perante os outros. “Como ele vai competir? Terei de alimentá-lo a vida toda?” questiona o pai, mostrando sua real preocupação com a própria imagem e desejo, desconsiderando as dificuldades, bem como o bem-estar do filho. “Nessa corrida desesperada, alimentam cavalos de corrida, não crianças”, indigna-se Ram, completando que forçar crianças a carregar o fardo das ambições de seus pais é pior do que trabalho infantil.       
 

Então que, compreendendo o ambiente onde viveu Ishaan e percebendo características de dislexia nos materiais e comportamento do aluno, o professor parte para sua missão de resgatar o garoto para a vida, despertando-lhe o interesse pelo estudo e mostrando-lhe que ele não está sozinho.           
 

Após Ishaan estar alcançando progressos em relação aos estudos, graças à compreensão do professor, o pai do menino vai ao colégio dizer a Ram que andaram pesquisando sobre dislexia, para que ele não ache que sua família não se importa com Ishaan. Neste momento marcante, o professor diz o que é importar-se e como isso é essencial para uma criança. Dar suporte, apoiar, encorajar, oferecer ajuda e carinho são coisas indispensáveis. 

É isso o que uma criança precisa dos pais, mas, na grande maioria das vezes, estes são muito mais eficazes em desencorajá-las e lhes fazer achar que são ruins, que são o problema. Isto foi o que fizeram também os pais de Ishaan – apontado por Ram. “Que bom que vocês acham que se importam”, conclui o professor, demonstrando que não concorda com o modo como os pais agiram com Ishaan, fazendo o pai perceber o quão responsável pelo sofrimento do filho ele era. 

É importante deixar claro que não é o diagnóstico de dislexia que desperta Ishaan, mas a grande oportunidade do garoto surge da compreensão, identificação e ajuda que lhe oferece o educador. Partindo do olhar da criança, e entendendo seu mundo, fica fácil abrir portas para a aprendizagem, utilizando métodos e recursos apropriados e interessantes. Ram teve a capacidade de colocar-se no lugar de seu aluno e, partindo de seu mundo, apresentá-lo aos conhecimentos que o menino tanto ansiava por construir, mas não tinha oportunidade ou auxílio.      
 

Aí vemos a diferença de um professor – educador – que se compromete com o aluno, não com os conteúdos. Em contato com outros professores, iguais aos tantos outros das escolas que frequentou, ou outros profissionais que poderiam lhe sugerir que tomasse remédios que apenas o adaptariam e entorpeceriam, o diagnóstico de dislexia pouco favoreceria Ishaan. 

Fracassada é a forma de ensinar que vemos incansavelmente no inicio do filme e por diversas vezes em nossas vidas, com a separação dos conhecimentos, descontextualização dos conteúdos com a vida das crianças e a obediência em oposição à reflexão e criticidade. A diferença está no modo como as dificuldades são observadas e trabalhadas, respeitando-se o ser humano por trás dos rótulos, observando suas potencialidades e dando importância ao que realmente fará a diferença na vida dessas crianças: o conhecimento.    

Diga-se de passagem que erros ou trocas grafêmicas (troca de letras semelhantes) e espelhamentos de letras são naturais quando as crianças entram no processo de alfabetização, e não indicam necessariamente que a criança seja disléxica.      
 

Ao final do filme, vemos os professores e pais de Ishaan reconhecendo suas limitações, se humanizando e percebendo os outros – cena difícil de ser vista na vida real. Temos realmente um final feliz – que não cabe aqui exprimir em palavras. Mas junto com os créditos, vemos que o final feliz é apenas na ficção, talvez apenas para algumas poucas crianças da vida real, pois surgem na tela imagens de crianças reais, malcuidadas, maltratadas, exploradas, que, ainda assim, sorriem e não deixam de ser crianças, ávidas por conhecimentos. 
 

O filme como um todo nos apresenta uma ficção que não tem nada de irreal – é a história da vida de incontáveis crianças e adultos. Quiséramos nós que tudo isso fosse apenas mais uma história de ficção


 "No mundo, há essas pequenas pedras preciosas, que desafiaram os caminhos do mundo, pois podiam olhá-lo com olhos diferentes. Seu pensamento era distinto e nem todos os entendiam. Eles enfrentaram oposição e, ainda assim, venceram, e o mundo ficou maravilhado."