domingo, 17 de março de 2013
Medianeras - Alex Xavier comenta a sessão
Realmente é um filme encantador. a cada vez que o vejo, descubro novos detalhes e percebo como é bom o roteiro do filme.
O debate foi interessante por questionar os limites e possibilidades do mundo virtual e de como ele se integra em nossas cidades.
E falamos também sobre a "alma" de cada cidade, expressa nas ruas e prédios que construímos, nas grades e cercas eletrificadas que nos protegem em uma sociedade cada vez mais violenta e paranóica.
Amedrontados, vivemos solitários eternamente acalentando o sonho do encontro com o outro que possa nos tirar desse isolamento.
Apesar de todas as forças que tendem a nos isolar, o afeto é capaz de superá-las e afirmar-se como possibilidade e anseio.
Falamos também que só quando abriram janelas "ilegais", na medianeira dos prédios, os dois se encontram, reafirmando que é quando saímos do considerado "normal" e "esperado", encontramos saídas para a solidão e o isolamento.
O videoclube Nise da Silveira se propõe a exercer o papel de uma dessas janelas não oficiais, espaço livre de troca de ideias sem buscar conclusões ou unanimidades, mas exercitando justamente o livre pensar, a liberdade de sentir e expressar-se sem amarras.
Alex Xavier em 17 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Medianeras - Martha Medeiros
Medianeras
MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 09/10/11
Nunca foi tão cômodo ser solitário, e o ermitão deixou de ameaçar: agora, ele é cool
Medianeras é o nome do novo filme argentino que está em cartaz no Brasil. Corri pra ver e descobri o significado do título: medianera, em espanhol, é aquela parte do edifício que não tem janela. É a lateral de concreto sem serventia pro morador, que o deixa sem comunicação com a cidade e que só é utilizada para a colocação de anúncios publicitários.
Pois esse paredão é o símbolo do filme, que conta a história de Mariana, uma garota que vive sozinha num pequeno apartamento de Buenos Aires, e de Martin, que vive sozinho em outro pequeno apartamento na mesma rua. São vizinhos de prédio, mas nunca se viram.
O que seria impensável num pequeno vilarejo – dois vizinhos que não se conhecem –, nas grandes cidade se tornou banal. O diretor Gustavo Taretto acredita na influência das metrópoles na vida de seus habitantes e criou uma fábula cinematográfica sobre a ambiguidade dos tempos de hoje: o que nos une é, ao mesmo tempo, o que nos separa.
Estamos todos conectados, mas pouco nos comunicamos. A fartura de redes sociais e a superpopulação urbana dão a impressão de que convivemos com nossos pares, mas o que a tecnologia e a arquitetura fazem, cada uma a seu modo, é oferecer um certo conforto para a nossa clausura. Nunca foi tão cômodo ser solitário.
Tudo conspira para que tenhamos uma boa vida em nossa própria companhia: o computador, os celulares e a variedade de serviços de tele-entrega, que trazem à porta comida, DVDs, revistas, medicamentos, livros e até sexo. Sair de casa pra quê?
Antigamente, o ermitão era uma anomalia da sociedade, desconfiava-se dele: qual será sua tara? Hoje, pesquisas apontam para uma quantidade cada vez maior de pessoas morando sozinhas. O isolamento virou tendência. E o ermitão deixou de ameaçar: agora, ele é cool.
Para fugir da resignação – a solidão pode ser prazerosa, mas é uma resignação –, é preciso atravessar paredes. Mariana e Martin são dois jovens beirando os 30 anos que estão se desacostumando a se relacionar com gente de carne e osso. Têm dificuldade de conversar em primeiros encontros e só se sentem eles mesmos no refúgio de seus cafofos.
É uma vida escura. É um filme escuro. Que só começa a se iluminar quando, cansados da claustrofobia física e também emocional, resolvem abrir uma janela na medianera. Um buraco clandestino naquele paredão inútil, para que permitam a entrada de um pouco de luz e possam enxergar o que acontece lá fora.
É comum os solitários justificarem sua solteirice dizendo: os homens são todos iguais, as mulheres são todas malucas, não há ninguém interessante. De fato, encontrar alguém que seja o nosso número é mesmo uma espécie de “Onde está Wally?”. Mas com um pouco de romantismo, muita sorte e fazendo a sua parte – quebrando a parede e inventando uma janela –, o happy end pode ser avistado lá embaixo, caminhando pela calçada.
domingo, 3 de março de 2013
Medianeras - Rodrigo Carrero
MEDIANERAS
De vez em quando nós topamos com filmes
que nos fazem questionar nossa existência. Não que isso seja profundo
demais, longe do nosso dia a dia ou até mesmo que “Medianeras” seja um
filme espetacular e indispensável, mas há no longa argentino esse
objetivo que, em parte, se cumpre.
“Medianeras” conta a história de duas
pessoas solitárias em Buenos Aires. Martín (Javier Drolas), designer
preso a seu próprio mundo, e Mariana (Pilar López de Ayala), arquiteta
frustrada com quase tudo na vida.
A sinopse pode relevar um filme denso e
chato, mas não é isso que vemos na tela. Na verdade, Medianeras se
revela uma trama dividida em duas histórias que correm em paralelo e que
sabemos que, em algum momento, irão se cruzar. A estrutura também é
simples e vai nos levando aos poucos a conhecer cada um dos personagens.
Sem pressa, mas também com atenção para não ficar enfadonho. É assim
que conhecemos Martín, atento às transformações sociais de sua cidade,
crítico ao extremo do modo de vida moderno, mas, vejam vocês,
extremamente dependente da internet e suas maravilhas. Mariana é
igualmente crítica, principalmente porque analisa o mundo por um viés
bem particular, que mistura arquitetura e frustrações amorosas/sexuais.
Martín segue parte de seus instintos masculinos, tenta o mínimo de
contato social, enquanto que Mariana é ainda menos sociável.
Esse olhar crítico de Buenos Aires é
direcionado por pequenas pílulas, que os personagens vão jogando para o
espectador ao passo em que interagem com a cidade (toques de Woody Allen
que, aliás, tem citação direta numa cena). Ao final, temos um quadro
desolador da cidade, mas pelo fato de que isso vai acontecendo aos
poucos, não nos irritamos com o filme nem percebemos esse lado ruim da
cidade durante o filme. Palmas, então, para Gustavo Taretto, que assina
direção e roteiro do longa. Ele é o responsável por essa crueza nos
sentimentos, não porque vemos tipos sujos e “reais” ao longo da
projeção, mas porque somos convidados a adentrar os sentimentos mais
íntimos de dois típicos portenhos, que vivem o lado bom da cidade, mas
que sofrem pesadamente pelo lado ruim. A vida moderna é, em grande
parte, a responsável pelos problemas dos dois, o que não deixa de ser
verdade, mas soa como exagero – como quando vemos uma pessoa reclamar da
vida e não vê-la fazendo nada para mudar a situação.
A todo o momento Taretto traz para a
tela referências e metáforas, como que querendo nos aproximar ao máximo
da realidade que ele conta (bem ao estilo Amélie Poulain). Não vivemos a
vida em Buenos Aires, mas compartilhamos da claustrofobia que é a
paisagem moderna entupida de prédios, só para citar um exemplo. Além
disso, ele traz também referências pop, como Star Wars, Astroboy, Wally
(de “Onde Está Wally?”), bate papo de internet etc. Como não se vê na
tela? Como não compartilhar de vários sentimentos e dificuldades
enfrentadas por Martín e Mariana? Os dois, que quase não se encontram no
filme, revelam ter uma química incrível e que me lembrou, em alguns
momentos, (500) Dias com Ela.
Talvez a metáfora mais perfeita
utilizada pelo roteiro seja mesmo a dos prédios, sua arquitetura caótica
em meio a uma paisagem social em constante mudança e pessoas tentando
se adaptar à vida moderna. Por isso o nome do filme é tão importante – e
quem não sabe espanhol, como eu que só sei o básico, vai entender
perfeitamente quando Mariana explicar o significado da palavra e,
consequentemente, de todo o filme.
Medianeras - crítica de Celso Sabadin
MEDIANERAS - BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL
Celso Sabadin
Com muito estilo, Medianeras foca toda a sua narrativa sobre duas solitárias almas portenhas: Martin (Javier Drolas), um escritor travado que detesta sair de seu pequeno apartamento, e Mariana (a bela espanhola Pilar López de Ayala, de Lope), recém-traumatizada pelo término de um relacionamento. Ambos moram na povoada e metropolitana Buenos Aires, mas sofrem de um dos maiores males do século: o isolamento. E sua consequente solidão.
Como diz Martin, “Há algo mais desolador no século 21 que não ter nenhum e-mail na caixa de entrada?”. Não se trata porém, como o subtítulo pode sugerir, de uma crítica à era virtual em que vivemos. O isolamento dos protagonistas parece ser muito mais um fruto da degeneração das relações sociais advindas do excesso de urbanização que propriamente um fenômeno deste período tecnológico. Uma solidão intrínseca, existissem ou não os computadores e a internet.
Talvez com uma ponta de inveja, talvez para melhorar nossa autoestima brasileira, vale dizer que Medianeras tem um certo toque de Jorge Furtado. Principalmente pela narração espirituosa e do bom texto que pontua toda a ação com saudáveis doses de sarcasmo e observações pertinentes. Como, por exemplo,”O que se pode esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?”, numa ácida crítica à capital argentina.
Mas as comparações param por aí. O filme tem personalidade forte e própria, e acerta ao transformar o mau humor e a empáfia argentinos (nestes pontos eles se parecem com os franceses) em matéria-prima para a sua própria autoironia.
O filme é o desdobramento do curta homônimo realizado em 2005 pelo menos diretor (Gustavo Taretto, agora aqui estreando na direção de longas), com o mesmo ator principal, e muito premiado em festivais internacionais. Fazer do curta um laboratório para o longa funcionou: este novo Medianeras ganhou os Prêmios de Público da Mostra Panorama do Festival de Berlim e no recente Festival de Gramado.
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