Ludens - Videoclube Nise da Silveira
domingo, 17 de março de 2013
Medianeras - Alex Xavier comenta a sessão
Realmente é um filme encantador. a cada vez que o vejo, descubro novos detalhes e percebo como é bom o roteiro do filme.
O debate foi interessante por questionar os limites e possibilidades do mundo virtual e de como ele se integra em nossas cidades.
E falamos também sobre a "alma" de cada cidade, expressa nas ruas e prédios que construímos, nas grades e cercas eletrificadas que nos protegem em uma sociedade cada vez mais violenta e paranóica.
Amedrontados, vivemos solitários eternamente acalentando o sonho do encontro com o outro que possa nos tirar desse isolamento.
Apesar de todas as forças que tendem a nos isolar, o afeto é capaz de superá-las e afirmar-se como possibilidade e anseio.
Falamos também que só quando abriram janelas "ilegais", na medianeira dos prédios, os dois se encontram, reafirmando que é quando saímos do considerado "normal" e "esperado", encontramos saídas para a solidão e o isolamento.
O videoclube Nise da Silveira se propõe a exercer o papel de uma dessas janelas não oficiais, espaço livre de troca de ideias sem buscar conclusões ou unanimidades, mas exercitando justamente o livre pensar, a liberdade de sentir e expressar-se sem amarras.
Alex Xavier em 17 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Medianeras - Martha Medeiros
Medianeras
MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 09/10/11
Nunca foi tão cômodo ser solitário, e o ermitão deixou de ameaçar: agora, ele é cool
Medianeras é o nome do novo filme argentino que está em cartaz no Brasil. Corri pra ver e descobri o significado do título: medianera, em espanhol, é aquela parte do edifício que não tem janela. É a lateral de concreto sem serventia pro morador, que o deixa sem comunicação com a cidade e que só é utilizada para a colocação de anúncios publicitários.
Pois esse paredão é o símbolo do filme, que conta a história de Mariana, uma garota que vive sozinha num pequeno apartamento de Buenos Aires, e de Martin, que vive sozinho em outro pequeno apartamento na mesma rua. São vizinhos de prédio, mas nunca se viram.
O que seria impensável num pequeno vilarejo – dois vizinhos que não se conhecem –, nas grandes cidade se tornou banal. O diretor Gustavo Taretto acredita na influência das metrópoles na vida de seus habitantes e criou uma fábula cinematográfica sobre a ambiguidade dos tempos de hoje: o que nos une é, ao mesmo tempo, o que nos separa.
Estamos todos conectados, mas pouco nos comunicamos. A fartura de redes sociais e a superpopulação urbana dão a impressão de que convivemos com nossos pares, mas o que a tecnologia e a arquitetura fazem, cada uma a seu modo, é oferecer um certo conforto para a nossa clausura. Nunca foi tão cômodo ser solitário.
Tudo conspira para que tenhamos uma boa vida em nossa própria companhia: o computador, os celulares e a variedade de serviços de tele-entrega, que trazem à porta comida, DVDs, revistas, medicamentos, livros e até sexo. Sair de casa pra quê?
Antigamente, o ermitão era uma anomalia da sociedade, desconfiava-se dele: qual será sua tara? Hoje, pesquisas apontam para uma quantidade cada vez maior de pessoas morando sozinhas. O isolamento virou tendência. E o ermitão deixou de ameaçar: agora, ele é cool.
Para fugir da resignação – a solidão pode ser prazerosa, mas é uma resignação –, é preciso atravessar paredes. Mariana e Martin são dois jovens beirando os 30 anos que estão se desacostumando a se relacionar com gente de carne e osso. Têm dificuldade de conversar em primeiros encontros e só se sentem eles mesmos no refúgio de seus cafofos.
É uma vida escura. É um filme escuro. Que só começa a se iluminar quando, cansados da claustrofobia física e também emocional, resolvem abrir uma janela na medianera. Um buraco clandestino naquele paredão inútil, para que permitam a entrada de um pouco de luz e possam enxergar o que acontece lá fora.
É comum os solitários justificarem sua solteirice dizendo: os homens são todos iguais, as mulheres são todas malucas, não há ninguém interessante. De fato, encontrar alguém que seja o nosso número é mesmo uma espécie de “Onde está Wally?”. Mas com um pouco de romantismo, muita sorte e fazendo a sua parte – quebrando a parede e inventando uma janela –, o happy end pode ser avistado lá embaixo, caminhando pela calçada.
domingo, 3 de março de 2013
Medianeras - Rodrigo Carrero
MEDIANERAS
De vez em quando nós topamos com filmes
que nos fazem questionar nossa existência. Não que isso seja profundo
demais, longe do nosso dia a dia ou até mesmo que “Medianeras” seja um
filme espetacular e indispensável, mas há no longa argentino esse
objetivo que, em parte, se cumpre.
“Medianeras” conta a história de duas
pessoas solitárias em Buenos Aires. Martín (Javier Drolas), designer
preso a seu próprio mundo, e Mariana (Pilar López de Ayala), arquiteta
frustrada com quase tudo na vida.
A sinopse pode relevar um filme denso e
chato, mas não é isso que vemos na tela. Na verdade, Medianeras se
revela uma trama dividida em duas histórias que correm em paralelo e que
sabemos que, em algum momento, irão se cruzar. A estrutura também é
simples e vai nos levando aos poucos a conhecer cada um dos personagens.
Sem pressa, mas também com atenção para não ficar enfadonho. É assim
que conhecemos Martín, atento às transformações sociais de sua cidade,
crítico ao extremo do modo de vida moderno, mas, vejam vocês,
extremamente dependente da internet e suas maravilhas. Mariana é
igualmente crítica, principalmente porque analisa o mundo por um viés
bem particular, que mistura arquitetura e frustrações amorosas/sexuais.
Martín segue parte de seus instintos masculinos, tenta o mínimo de
contato social, enquanto que Mariana é ainda menos sociável.
Esse olhar crítico de Buenos Aires é
direcionado por pequenas pílulas, que os personagens vão jogando para o
espectador ao passo em que interagem com a cidade (toques de Woody Allen
que, aliás, tem citação direta numa cena). Ao final, temos um quadro
desolador da cidade, mas pelo fato de que isso vai acontecendo aos
poucos, não nos irritamos com o filme nem percebemos esse lado ruim da
cidade durante o filme. Palmas, então, para Gustavo Taretto, que assina
direção e roteiro do longa. Ele é o responsável por essa crueza nos
sentimentos, não porque vemos tipos sujos e “reais” ao longo da
projeção, mas porque somos convidados a adentrar os sentimentos mais
íntimos de dois típicos portenhos, que vivem o lado bom da cidade, mas
que sofrem pesadamente pelo lado ruim. A vida moderna é, em grande
parte, a responsável pelos problemas dos dois, o que não deixa de ser
verdade, mas soa como exagero – como quando vemos uma pessoa reclamar da
vida e não vê-la fazendo nada para mudar a situação.
A todo o momento Taretto traz para a
tela referências e metáforas, como que querendo nos aproximar ao máximo
da realidade que ele conta (bem ao estilo Amélie Poulain). Não vivemos a
vida em Buenos Aires, mas compartilhamos da claustrofobia que é a
paisagem moderna entupida de prédios, só para citar um exemplo. Além
disso, ele traz também referências pop, como Star Wars, Astroboy, Wally
(de “Onde Está Wally?”), bate papo de internet etc. Como não se vê na
tela? Como não compartilhar de vários sentimentos e dificuldades
enfrentadas por Martín e Mariana? Os dois, que quase não se encontram no
filme, revelam ter uma química incrível e que me lembrou, em alguns
momentos, (500) Dias com Ela.
Talvez a metáfora mais perfeita
utilizada pelo roteiro seja mesmo a dos prédios, sua arquitetura caótica
em meio a uma paisagem social em constante mudança e pessoas tentando
se adaptar à vida moderna. Por isso o nome do filme é tão importante – e
quem não sabe espanhol, como eu que só sei o básico, vai entender
perfeitamente quando Mariana explicar o significado da palavra e,
consequentemente, de todo o filme.
Medianeras - crítica de Celso Sabadin
MEDIANERAS - BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL
Celso Sabadin
Com muito estilo, Medianeras foca toda a sua narrativa sobre duas solitárias almas portenhas: Martin (Javier Drolas), um escritor travado que detesta sair de seu pequeno apartamento, e Mariana (a bela espanhola Pilar López de Ayala, de Lope), recém-traumatizada pelo término de um relacionamento. Ambos moram na povoada e metropolitana Buenos Aires, mas sofrem de um dos maiores males do século: o isolamento. E sua consequente solidão.
Como diz Martin, “Há algo mais desolador no século 21 que não ter nenhum e-mail na caixa de entrada?”. Não se trata porém, como o subtítulo pode sugerir, de uma crítica à era virtual em que vivemos. O isolamento dos protagonistas parece ser muito mais um fruto da degeneração das relações sociais advindas do excesso de urbanização que propriamente um fenômeno deste período tecnológico. Uma solidão intrínseca, existissem ou não os computadores e a internet.
Talvez com uma ponta de inveja, talvez para melhorar nossa autoestima brasileira, vale dizer que Medianeras tem um certo toque de Jorge Furtado. Principalmente pela narração espirituosa e do bom texto que pontua toda a ação com saudáveis doses de sarcasmo e observações pertinentes. Como, por exemplo,”O que se pode esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?”, numa ácida crítica à capital argentina.
Mas as comparações param por aí. O filme tem personalidade forte e própria, e acerta ao transformar o mau humor e a empáfia argentinos (nestes pontos eles se parecem com os franceses) em matéria-prima para a sua própria autoironia.
O filme é o desdobramento do curta homônimo realizado em 2005 pelo menos diretor (Gustavo Taretto, agora aqui estreando na direção de longas), com o mesmo ator principal, e muito premiado em festivais internacionais. Fazer do curta um laboratório para o longa funcionou: este novo Medianeras ganhou os Prêmios de Público da Mostra Panorama do Festival de Berlim e no recente Festival de Gramado.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Manoel de Barros, o encanto de descobrir
O Encanto de Descobrir Manoel de Barros
Por Hubert Alqueres
Premiado como melhor filme documentário na edição 2009 do Festival Paulínia de Cinema, Só dez por cento é mentira tem conquistado elogios e aplausos por onde passa. Não é para menos. Pedro Cézar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense, respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Elogiado por Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, sua obra é simples, moderna, repleta de originalidade e busca inspiração na infância e nas coisas corriqueiras e “desimportantes” do mundo.

Ele faz releituras, dá novas dimensões a objetos, traquitanas e “inutensílios”, valoriza personagens que encantam com sua simplicidade. O “absurdo verossímil que a gente vê no mundo infantil” nas palavras do diretor Pedro Cézar. A noção de verdade e invenção começa pelo título do filme, que se refere a como Manoel de Barros vê sua obra: “noventa por cento é invenção; só dez por cento é mentira”. E segue com uma explicação poética: “A invenção é um negócio profundo. Serve para aumentar o mundo”. Aos 93 anos, diz que até hoje só teve infância e, portanto, escreve “apenas” sobre ela. Depois dos 70, entrou no que chama de “terceira infância” e passou a produzir cada vez mais. E o filme mostra que continua vendo o mundo com olhar encantado, certo de que cada objeto não se limita ao seu significado literal: “as coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis.”
Declara ser poeta em tempo integral: “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde...” e escreve sobre as limitações do homem: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito”. E, talvez por isto, o filme se declare como sendo uma “desbiografia” do poeta e faça o elogio do “des-herói”, termo do autor para qualificar personagens que estão na contramão do convencional, a exemplo de Charles Chaplin - um vagabundo, um “herói ao contrário”.
O resultado é um mergulho estético na obra de Manoel de Barros. A fotografia e a música, onde predomina a viola, trazem a lembrança do Brasil profundo. As imagens são poéticas, frases e poemas do escritor são colocados na tela, como nos cadernos que ele mesmo confecciona e escreve a lápis, “em caligrafia miúda”. Fica evidente o esforço, lapidação e paciência com que lida com sua poesia.
Lá estão também os depoimentos de outros autores, cineastas atores, artistas plásticos e amigos da paisagem pantaneira que se transformaram em personagens de seu rico imaginário. E há, principalmente, o depoimento do próprio Manoel de Barros, que é conhecido por evitar exposição na mídia. Famoso por conceder entrevistas somente via correspondência, Manoel resistiu a autorizar a gravação de seus depoimentos. Para Pedro Cézar, “ele não nega contato com as pessoas. Só não gosta de ser registrado oralmente”, e reforça: “ele sempre recebe gente em sua casa, conversa numa boa. Só pede para que não seja gravado”. Afinal, “poesia não é para descrever, é para descobrir”, diz o poeta, enfatizando que ela pode estar em qualquer canto, bastando apenas preparar o olhar e, na tela surge mais uma crença sua: “poesia não é para compreender, poesia é para incorporar”.
O cineasta só conseguiu fazer a entrevista porque, depois de muito insistir, afirmou que era melhor deixar para lá, afinal o desejo de fazer o filme era “só um sonho”. O velho poeta, sabedor da importância dos sonhos, se rendeu e o documentário pôde virar realidade. “Venha amanhã bem cedo, pode fazer as perguntas. Se eu me interessar, eu respondo”. Respondeu a todas e Pedro Cézar soube aproveitar a oportunidade ao máximo.
Cenas inspiradas, manchas nas paredes sujas que se transformam em desenhos cheios de significado e lirismo. Pneus que, dos carros e das fábricas, vão parar nas mãos de garotos que os utilizam como balanços, brincam com suas bóias num lago ou as atiram de um para o outro num final de tarde, ao “lusco fusco”, momento mágico que sempre confunde como essa poesia, que desvenda novas leituras em matérias cheias de disfarce, muitas vezes quase que dissimuladas. Um filme que honra a qualidade do biografado e traz a magia e o encantamento da arte de se fazer cinema.
Por Hubert Alqueres
Premiado como melhor filme documentário na edição 2009 do Festival Paulínia de Cinema, Só dez por cento é mentira tem conquistado elogios e aplausos por onde passa. Não é para menos. Pedro Cézar, seu diretor, fez um filme lúdico sobre o recluso Manoel de Barros, poeta sul-mato-grossense, respeitado nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Elogiado por Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, sua obra é simples, moderna, repleta de originalidade e busca inspiração na infância e nas coisas corriqueiras e “desimportantes” do mundo.
Ele faz releituras, dá novas dimensões a objetos, traquitanas e “inutensílios”, valoriza personagens que encantam com sua simplicidade. O “absurdo verossímil que a gente vê no mundo infantil” nas palavras do diretor Pedro Cézar. A noção de verdade e invenção começa pelo título do filme, que se refere a como Manoel de Barros vê sua obra: “noventa por cento é invenção; só dez por cento é mentira”. E segue com uma explicação poética: “A invenção é um negócio profundo. Serve para aumentar o mundo”. Aos 93 anos, diz que até hoje só teve infância e, portanto, escreve “apenas” sobre ela. Depois dos 70, entrou no que chama de “terceira infância” e passou a produzir cada vez mais. E o filme mostra que continua vendo o mundo com olhar encantado, certo de que cada objeto não se limita ao seu significado literal: “as coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis.”
Declara ser poeta em tempo integral: “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde...” e escreve sobre as limitações do homem: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito”. E, talvez por isto, o filme se declare como sendo uma “desbiografia” do poeta e faça o elogio do “des-herói”, termo do autor para qualificar personagens que estão na contramão do convencional, a exemplo de Charles Chaplin - um vagabundo, um “herói ao contrário”.
O resultado é um mergulho estético na obra de Manoel de Barros. A fotografia e a música, onde predomina a viola, trazem a lembrança do Brasil profundo. As imagens são poéticas, frases e poemas do escritor são colocados na tela, como nos cadernos que ele mesmo confecciona e escreve a lápis, “em caligrafia miúda”. Fica evidente o esforço, lapidação e paciência com que lida com sua poesia.
Lá estão também os depoimentos de outros autores, cineastas atores, artistas plásticos e amigos da paisagem pantaneira que se transformaram em personagens de seu rico imaginário. E há, principalmente, o depoimento do próprio Manoel de Barros, que é conhecido por evitar exposição na mídia. Famoso por conceder entrevistas somente via correspondência, Manoel resistiu a autorizar a gravação de seus depoimentos. Para Pedro Cézar, “ele não nega contato com as pessoas. Só não gosta de ser registrado oralmente”, e reforça: “ele sempre recebe gente em sua casa, conversa numa boa. Só pede para que não seja gravado”. Afinal, “poesia não é para descrever, é para descobrir”, diz o poeta, enfatizando que ela pode estar em qualquer canto, bastando apenas preparar o olhar e, na tela surge mais uma crença sua: “poesia não é para compreender, poesia é para incorporar”.
O cineasta só conseguiu fazer a entrevista porque, depois de muito insistir, afirmou que era melhor deixar para lá, afinal o desejo de fazer o filme era “só um sonho”. O velho poeta, sabedor da importância dos sonhos, se rendeu e o documentário pôde virar realidade. “Venha amanhã bem cedo, pode fazer as perguntas. Se eu me interessar, eu respondo”. Respondeu a todas e Pedro Cézar soube aproveitar a oportunidade ao máximo.
Cenas inspiradas, manchas nas paredes sujas que se transformam em desenhos cheios de significado e lirismo. Pneus que, dos carros e das fábricas, vão parar nas mãos de garotos que os utilizam como balanços, brincam com suas bóias num lago ou as atiram de um para o outro num final de tarde, ao “lusco fusco”, momento mágico que sempre confunde como essa poesia, que desvenda novas leituras em matérias cheias de disfarce, muitas vezes quase que dissimuladas. Um filme que honra a qualidade do biografado e traz a magia e o encantamento da arte de se fazer cinema.
"Como estrelas na terra" - Criando condições à liberdade
COMO ESTRELAS NA TERRA
Uma lousa de sala
de aula preenchida por números e letras misturados e, na frente dela,
professoras típicas anunciando as notas de seus alunos. Aqueles que tiveram bom
desempenho ganham um sorriso de satisfação, e aquele que sempre vai mal recebe
uma expressão de decepção.
Assim inicia-se o filme que nos mostra, através da história de um menino com dislexia, o sofrimento pelo qual uma criança em idade escolar pode passar, cercada de pessoas incapazes de entender o que se passa com um outro, especialmente quando este é uma criança.
Assim inicia-se o filme que nos mostra, através da história de um menino com dislexia, o sofrimento pelo qual uma criança em idade escolar pode passar, cercada de pessoas incapazes de entender o que se passa com um outro, especialmente quando este é uma criança.
"Como Estrelas na Terra” é dirigido pelo, até então, ator e produtor Aamir Khan, que impressiona pela qualidade, criticidade e sensibilidade do filme, no qual atua como o professor substituto Ram Shankar Nikumb. Embora a história seja focada em uma criança em especial, o filme mostra as negligências, falta de cuidado e de atenção com a maioria das crianças. Em especial, mostra o real papel do educador para a formação de um novo ser.
Diferente da maior parte do cinema indiano, as músicas neste filme não são apenas para promoção do mesmo, mas uma parte importante da construção deste, sendo inseridas na historia quase como nos dizendo o que as situações representam, sem as cenas de dança típicas do cinema bollywoodiano - nome dado à indústria de cinema hindi, a maior indústria de cinema indiana, em termos de lucros e popularidade, cujo nome se deve à fusão de Bombaim (antigo nome de Mumbai, onde se localiza a indústria) e Hollywood (indústria cinematográfica americana).

Sendo diferente de todas as outras
pessoas, o menino Ishaan – protagonista do filme - sempre arranja confusão, mas
por não estar dentro do mundo deles, consegue enxergar coisas que os outros
deixam passar despercebidas.
A primeira música
do filme nos mostra exatamente isso, ao criticar o ritmo de vida pré-moldado e
frenético da família de Ishaan - que enfrenta diariamente uma “luta maluca para
chegar a um destino”. Em oposição a isso, as crianças “não são escravas do
tempo, são livres, tem reuniões com as borboletas e debates com as árvores.” Mas não é isso o que a sociedade espera delas, como vemos com a mãe do menino, que, mecanicamente, assume o papel de tirá-lo desse estado, procurando adaptá-lo para a vida no mundo dito real, o do trabalho, com horários marcados.
Na escola, vemos a religião impondo regras e organização utópicas, sem levar em consideração as crianças, que não escutam, muito menos entendem, o que lhes dizem. No mesmo cenário, surge a professora enérgica que grita, impaciente, com os alunos que ela não enxerga.
Ao ser ordenado a ler um texto, Ishaan responde que “As letras estão dançando”, e a professora acha que o aluno zomba dela. Tendo sua dificuldade ignorada, o garoto fica nervoso (como era de se esperar) e utiliza-se de ‘mal-comportamento’ para sair da situação. Não importa muito aqui o motivo pelo qual os professores fazem isso, mas sim o que acabam fazendo às crianças, que sempre pagam pela ignorância dos outros.
Todos os outros alunos zombam de Ishaan, acabando por humilhá-lo, e, triste, o menino foge da escola à procura de liberdade, o que não encontraria naquele lugar. A música que se segue explicita o pensamento do menino: “Existem outros como eu? Não estou sozinho sonhando acordado, de olhos abertos?”
Para os pais, Ishaan é preguiçoso, desatento. O pai é agressivo, não percebe que ele é apenas uma criança e o quanto pode ser assustador para ele. Ambos os pais deveriam apoiar o menino, mas ficam nervosos, xingam, batem – não conseguem ver com os olhos do filho, apenas através dos seus.
Logo, Ishaan deverá mudar-se de escola, pois suas professoras dizem que ele não progride, erra de propósito e não se interessa pelas aulas. Mas a culpa é dele ou as aulas eram desinteressantes? Quem deveria fazê-lo se interessar e ajudá-lo a progredir?
Frente ao “fracasso” do filho, os pais só conseguem pensar em si mesmos: o pai sente-se insultado por ter um filho chamado de retardado e a mãe, por sua vez, sente-se culpada, questionando-se sobre onde teria errado. Nenhum dos dois pensa em como o menino está se sentindo e o punem (colocando realmente a culpa pelo fracasso em Ishaan), mandando-o a um colégio interno, com o qual o menino tem pesadelos e implora para não ir. Ainda assim, ele não tem chances, pois está sozinho – sem alguém que possa entendê-lo.
As cenas em que Ishaan é deixado no colégio interno, ao som da música ‘Maa’, que significa mãe – uma das mais belas do filme –, mostram a dor e desencantamento do menino, ao se ver abandonado. “Sou tão ruim assim, mãe?”, ouvimos na canção que mostra os sentimentos de culpa e sofrimento pelos quais toda criança passa ao ser castigada por aqueles que mais ama.
Toda criança passa por isso, ao apanhar dos pais – ou mesmo brigar com eles – e logo em seguida ser impulsionado a chorar no colo deles, afinal de contas não há a quem mais recorrer (são como o Deus que ama, e por isso pune, mas não deixa de merecer o amor do filho).
O filme também destrói a crença de que a mãe sabe o que é melhor para o filho, mostrando que apenas o sentimento que se tem por este não é suficiente. Para criar uma criança do melhor modo é preciso ter conhecimento sobre o mundo, saber entender o outro e poder ajudar quando preciso, sabendo identificar necessidades e enxergar oportunidades.
No colégio interno, a regra é disciplina. As crianças se adaptam ao sistema e apenas reproduzem o que lhes é dito, assim agradando aos ‘mestres’. “Lembre-se do que ele diz e imite-o”, sugere um colega de Ishaan, demonstrando o método com o qual é possível sobreviver ali (cenário idêntico às escolas tradicionais daqui – Brasil).

Ao longo dos dias, Ishaan ouve de todos ao seu redor (pai, mãe, professores, etc) a mesma opinião, de que é preguiçoso, desatento, incompetente... Ninguém busca compreender os motivos de seu comportamento, mas todos o julgam.
Longe da família e ridicularizado no novo ambiente, Ishaan torna-se apático, vazio. A vivacidade, alegria e curiosidade que o levavam a produzir ricos desenhos e pinturas, agora são substituídos pela tristeza do abandono, pela decepção, em especial com a atitude da mãe, pela repressão e autoritarismo que agora lhe são contínuos, sem ter para onde fugir.
Anestesiado, o menino parece entrar em um ciclo autodestrutivo – não estando descartadas as possibilidades de suicídio ou abandono social – e não se dá conta de que poderia obter ajuda do novo professor que se apresentava de modo diferente, dizendo aos alunos que a partir de então, em sua aula, estavam livres.
Este professor, Ram Shankar Nikumb, vindo de uma escola de crianças especiais, tem uma outra visão do ensino, que olha para o aluno e atende às suas necessidades, bem como abre novos caminhos. Os outros professores dizem-lhe, por sua vez, que seus métodos não funcionariam ali, onde as crianças eram preparadas para a “batalha da vida”.
“Crianças têm de competir, fazer sucesso, vencer”, diz um dos professores, que deveria ser um profissional apto a lidar com as diferenças e mostrar que as coisas mais importantes não consegue-se passando por cima de ninguém, mas se obtém da própria vida. Mas ainda são poucos os professores que realmente sabem o valor e importância de sua profissão.
Assume-se simplesmente o papel de adaptar as crianças ao mundo competitivo e alienante do trabalho – e achando que com isso estão contribuindo suficientemente para a formação dessas pessoas.
Ram, diferente dos outros, olha para Ishaan e vê o que ninguém percebia, que “seus olhos berram por socorro”, e seu papel é ajudar o menino. Mas não é precipitado, antes busca analisar os cadernos, conversar com o único amigo de Ishaan e, inevitavelmente, procurar a família – essencialmente, busca entender quem é aquela criança.
Ao som da música que dá título ao filme, vemos o professor Ram Nikumbh em contato com as crianças especiais e, em seguida, indo conversar com os pais de Ishaan. Antes de mostrar o papel do educador, o filme ensina, mais do que isso, o significado e as implicações de se ter um filho. O professor interpela os pais de Ishaan sobre as dificuldades do garoto, que para eles são apenas erros e indisciplina, e tenta mostrar-lhes que Ishaan não faz nada daquilo por ser preguiçoso ou burro, mas por ter dificuldade em entender as palavras e seus significados. O mal comportamento de Ishaan, explica aos pais, vem da dificuldade de admitir suas incapacidades: é mais fácil dizer “não quero”, ao invés de admitir que não consegue.
O professor, então, depara-se com a dura realidade de que os pais não se importam que o filho esteja bem, mas que seja bem-sucedido perante os outros. “Como ele vai competir? Terei de alimentá-lo a vida toda?” questiona o pai, mostrando sua real preocupação com a própria imagem e desejo, desconsiderando as dificuldades, bem como o bem-estar do filho. “Nessa corrida desesperada, alimentam cavalos de corrida, não crianças”, indigna-se Ram, completando que forçar crianças a carregar o fardo das ambições de seus pais é pior do que trabalho infantil.
Então que, compreendendo o ambiente onde viveu Ishaan e percebendo características de dislexia nos materiais e comportamento do aluno, o professor parte para sua missão de resgatar o garoto para a vida, despertando-lhe o interesse pelo estudo e mostrando-lhe que ele não está sozinho.
Após Ishaan estar alcançando progressos em relação aos estudos, graças à compreensão do professor, o pai do menino vai ao colégio dizer a Ram que andaram pesquisando sobre dislexia, para que ele não ache que sua família não se importa com Ishaan. Neste momento marcante, o professor diz o que é importar-se e como isso é essencial para uma criança. Dar suporte, apoiar, encorajar, oferecer ajuda e carinho são coisas indispensáveis.
É isso o que uma criança precisa dos pais, mas, na grande maioria das vezes, estes são muito mais eficazes em desencorajá-las e lhes fazer achar que são ruins, que são o problema. Isto foi o que fizeram também os pais de Ishaan – apontado por Ram. “Que bom que vocês acham que se importam”, conclui o professor, demonstrando que não concorda com o modo como os pais agiram com Ishaan, fazendo o pai perceber o quão responsável pelo sofrimento do filho ele era.
É importante deixar claro que
não é o diagnóstico de dislexia que desperta Ishaan, mas a grande oportunidade
do garoto surge da compreensão, identificação e ajuda que lhe oferece o
educador. Partindo do olhar da criança, e entendendo seu mundo, fica fácil abrir
portas para a aprendizagem, utilizando métodos e recursos apropriados e
interessantes. Ram teve a capacidade de colocar-se no lugar de seu aluno e,
partindo de seu mundo, apresentá-lo aos conhecimentos que o menino tanto ansiava
por construir, mas não tinha oportunidade ou auxílio. Aí vemos a diferença de um professor – educador – que se compromete com o aluno, não com os conteúdos. Em contato com outros professores, iguais aos tantos outros das escolas que frequentou, ou outros profissionais que poderiam lhe sugerir que tomasse remédios que apenas o adaptariam e entorpeceriam, o diagnóstico de dislexia pouco favoreceria Ishaan.
Diga-se de passagem que erros ou trocas grafêmicas (troca de letras semelhantes) e espelhamentos de letras são naturais quando as crianças entram no processo de alfabetização, e não indicam necessariamente que a criança seja disléxica.
Ao final do filme, vemos os professores e pais de Ishaan reconhecendo suas limitações, se humanizando e percebendo os outros – cena difícil de ser vista na vida real. Temos realmente um final feliz – que não cabe aqui exprimir em palavras. Mas junto com os créditos, vemos que o final feliz é apenas na ficção, talvez apenas para algumas poucas crianças da vida real, pois surgem na tela imagens de crianças reais, malcuidadas, maltratadas, exploradas, que, ainda assim, sorriem e não deixam de ser crianças, ávidas por conhecimentos.
O filme como um todo nos apresenta uma ficção que não tem nada de irreal – é a história da vida de incontáveis crianças e adultos. Quiséramos nós que tudo isso fosse apenas mais uma história de ficção
"No
mundo, há essas pequenas pedras preciosas, que desafiaram os caminhos do mundo,
pois podiam olhá-lo com olhos diferentes. Seu pensamento era distinto e nem
todos os entendiam. Eles enfrentaram oposição e, ainda assim, venceram, e o
mundo ficou maravilhado."
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