sábado, 19 de maio de 2012

email de Lula Moura depois da sessão de Estamira



 Alex, Bel, Pessoal, boa noite

... depois de "Estamira", ainda estou aqui tentando achar o caminho de volta.
   Não consigo voltar.
  Já tentei enganar a galera aqui nesse canto, mas o eco do meu inconsciente repete que  aqui na estação Estamira dos caminhos de minha mente não tem lugar para "esperto-ao-contrário".

... se até o dia 8 de junho eu conseguir , prometo dar um pulo novamente ao "Cabo Canaveral" - SER.   Mas, por favor, dessa vez não me mandem pra tão longe...    Além-do-além, do meu interior...

Um beijo no coração de todos,
Lula Moura.

Meu pé esquerdo - trailer do filme



Cena de abertura do filme

                                                                  
                                                                        Trailer do filme

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Videoclube com duas sedes: na Tijuca e em Meriti



O Videoclube Nise da SIlveira funciona em dois locais diferentes. Na Tijuca, e em São João de Meriti. Nos dois espaços onde trabalho como médico e terapeuta. Na Tijuca, na SER, e em ão João no espaço CUBIÇA.
Acho muito importante levar esse tipo de espaço para discutir vida e saúde não só para a área "nobre" do Rio de Janeiro, mas também para Meriti, na baixada fluminense. Exatamente porque nessa área existe muita carência desse tipo de espaço que une cultura, lazer e saúde. Por isso essas duas "pernas" do projeto, atingindo uma população maior e mais diversificada.




Nise da Silveira encontra-se com Jung

Registro do encontro entre Nise da Silveira e Gustav Jung, criador da Psicologia Analít

Casa das Palmeiras - Frases de Nise da Silveira


Frases de Nise da Silveira

Palavras de Nise da Silveira, notas de Bernardo Horta e outras pessoas que freqüentavam o Grupo de Estudos no Museu de Imagens do Inconsciente, o Grupo de Estudos C. G. Jung, no Flamengo, a Casa das Palmeiras, em Botafogo, ou a residência dela. Era hábito de alguns amigos anotarem as palavras de Nise numa folha de papel, no livro ou em caderninhos.

Algumas destas palavras de NISE, possivelmente, já foram publicadas aqui no Blog.

“Todo mundo deve inventar alguma coisa, a criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a reestruturação da psique. O que cura, fundamentalmente, é o estímulo à criatividade.”

“É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade.”

“Para começar a estudar é preciso, de início, capinar. Capinar, capinar, capinar... Intensamente. Somente, após longo trabalho de capinação é que você poderá trocar o ancinho por um longo pente, e passá-lo sedosamente nos cabelos de uma mulher.”

“A contaminação psíquica é pior que piolho. Vai passando de uma cabeça para outra, numa rapidez incrível. E, como você sabe, todo mundo já pegou piolho.”

“Há no meu temperamento essa fúria. Quando eu quero uma coisa, eu insisto. Todo o dia, sem falta, eu levantava cedo, pegava o ônibus e ia trabalhar em Engenho de Dentro. Todo dia, todo dia... Nada me tirava daquele caminho.”

“Os gatos são os seres mais lindos, inteligentes e independentes do mundo. Essa é a razão por que os homens tem tanta dificuldade de se relacionar com eles e os perseguem indiscriminadamente desde o início dos tempos.”

“Desprezo as pessoas que se julgam superiores aos animais. Os animais tem a sabedoria da natureza. Eu gostaria de ser como o gato: quando não se quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não tem papo.”

“Eu me sinto bicho. Bicho é mais importante que gente. Pra mim o teste é o bicho, se não passar por ele, não tem vez. Freud disse que quem pensa que não é bicho, é arrogante.”

“Porque passei pela prisão, eu compreendo as pessoas e os animais que estão doentes, pobres, que sofrem. Eu me identifico com eles. Sinto-me um deles.”

“Só os loucos e os artistas podem me compreender.”

“A pesquisa e o estudo a partir das vertentes imagísticas estão apenas começando. Somente o ponto do iceberg despertou. A partir do século XXI, os interessados neste assunto devem se dedicar intensamente, pois, das imagens surgirão não só revelações sobre o corpo psicológico e físico, como descobertas das potencialidades mentais dos seres humanos. As descobertas futuras sobre o inconsciente revolucionarão a história da raça humana.

“Madame Adelaide Sechehaye. Ela me disse: ‘Só se pode progredir pelo prazer’, meu encontro com ela foi um grande prazer.”

“Há beleza na vida, há beleza em tudo. Vocês veem?... Há beleza na alegria, e mesmo na saudade, na tristeza, no sofrimento e até na partida, há beleza. A vida é uma beleza.”

“O Laing era um gato.”

“Todo mundo deve inventar alguma coisa, a criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a reestruturação da psique. O que cura, fundamentalmente é o estímulo à criatividade. Ela é indestrutível. A criatividade está em toda parte.”

“Quando descobri a unidade da matéria e da energia, uma coisa se transformou na outra; minha vida mudou.”

“Em minhas buscas e incursões, ao mergulhar nos dinamismos da psique, o fato de maior importância foi o encontro com a psicologia de Carl Gustav Jung.”

“Encontrei na psicologia de Jung e nas obras deste mestre o meu melhor instrumento de trabalho.”

“Não se iludem, Jung não está aqui na biblioteca do Flamengo, Carl Gustav Jung está no Museu de Imagens do Inconsciente, em Engenho de Dentro. Quem quiser vê-lo de perto vá até lá.”

“Vocês aí, por favor! Não me venham com jargões psiquiátricos! Isso aqui é o Grupo de Estudos C.G. Jung, um Grupo sério.”

“Não há uma só Grande Mãe - há milhares. Existem várias denominações, todas se referindo a um mesmo arquétipo.”

“A obra de arte para Freud fundamenta-se nos condicionamentos individuais do criador, e o Jung encara a obra de arte como uma produção superpessoal.”
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Um amigo sobre Nise: “Nise uma universidade, alma de artista. Agregava talentos sem linha divisória, separação.”

O poder das imagens



Por que um Videoclube ?????????

A ideia principal que fundamenta o projeto "Videoclube Nise da Silveira" é a força das imagens. Elas comunicam muito mais que as palavras, e atingem nossa compreensão de forma diferente do que as ideias podem fazer. Acredito que junto com as ideias, tem a força das histórias, sua capacidade de nos sensibilizar, de ampliar nossa humanidade, conhecer outras experiências, reconhecer nelas coisas que já conhecemos e outras que jamais imaginamos.
Mas além  das imagens e das histórias, a proposta de um videoclube aposta suas fichas na importância do trabalho em grupo. A profundidade e a diversidade de opiniões e impressões sobre cada obra permite um sem número de possibilidades novas de interpretar e mesmo de compreender os enredos e as ideias veiculadas.

             Outro aspecto importante foi minha experiência pessoal de descoberta e crescimento através da arte. O teatro, o cinema, a literatura e a música foram ingredientes especiais para que eu me tornasse quem sou hoje, fermento para meu crescimento. Enxergo a arte, através de seu estímulo à sensibilidade, como um auxiliar precioso no trabalho de saúde visto de uma forma holística: que compreende saúde como busca de uma visão maior, mais ampla da vida e da existência humana. A doença denuncia nossa estreiteza de visão, nossa cegueira diante do que nos faz crescer e ser saudável, e do que nos paralisa e diminui.

Como disse Nise da Silveira:
 “A pesquisa e o estudo a partir das vertentes imagísticas estão apenas começando. Somente o ponto do iceberg despertou. A partir do século XXI, os interessados neste assunto devem se dedicar intensamente, pois, das imagens surgirão não só revelações sobre o corpo psicológico e físico, como descobertas das potencialidades mentais dos seres humanos. As descobertas futuras sobre o inconsciente revolucionarão a história da raça humana."

Trailer de ESTAMIRA


Videoclube em Meriti - Meu pé esquerdo


Videoclube Nise da Silveira estreia no Espaço Cubiça, em São João de Meriti na Baixada Fluminense

 Meu pé esquerdo (My left foot)


                Em 28 de Abril de 2012, estreiou o Videoclube Nise da Silveira no Espaço Cubiça, em São João de Meriti. Foi uma tarde chuvosa, e como era o primeiro evento desse tipo, tivemos relativamente pouco público. Mas somamos dez pessoas, interessadas e interessantes, que curtiram o evento , e que provavelmente devem voltar para os próximos. O filme foi um sucesso.  Assistimos a “Meu pé esquerdo”, de Jim Sheridan, e nos emocionamos com a história real da luta do personagem principal, Cristy Brown, e seu enorme esforço de superação. Mostra também a importância do apoio familiar em seu processo. Destaque absoluto para a personagem da mãe do personagem, exemplar no cuidado, sensibilidade e respeito com que lida com os desafios que foram surgindo na vida de seu filho.



                Depois da sessão, o lanche acompanhou nossa conversa sobre o filme. Criamos um ambiente bastante descontraído onde foi possível falar e ouvir sem pressa, todos bastante emocionados e sensibilizados pelo filme que tínhamos acabado de ver.
                Em um local onde diversas pessoas se tratam e lutam por saúde, exemplo tão contundente de resiliência cria inspiração, e fortalece a todos mostrando como o ser humano é capaz de superar enormes obstáculos, e de como muitas vezes o impossível acontece. A vontade humana, seu desejo de superar-se e alcançar seus objetivos é uma força enorme, da qual não tem os consciência. "Querer é poder" poderia resumir a ideia desse filme maravilhoso.
                  Em minha experiência como médico, tive o prazer e o orgulho de ser cúmplice desses processos de transformação radicais, em que vemos a lagarta livrando-se de suas cascas, deixando para trás suas couraças e receios, abrir asas e voar. Considero esse um dos maiores privilégios de minha profissão.
acredito que os filmes com suas histórias, e a arte em geral, podem ser coadjuvantes poderosos nesses processos de vir-a-ser, nessa aventura heroica de nos tornarmos nós mesmos.
               
                O Videoclube Nise da Silveira faz parte do Projeto Ludens, criado e desenvolvido pelo médico homeopata e arteterapeuta Alex Xavier que se propõe a promover debates ligados à saúde através do cinema, poesias, contos, música. A cada mês teremos uma atividade diferente, sempre aos sábados à tarde. Uma oportunidade de lazer saudável e um ponto de encontro de pessoas que querem cuidar de sua sensibilidade, alimentar sua alma, contaminar-se e alimentar-se com arte e transformação.


Transcrição do filme ESTAMIRA

ESTAMIRA

Um filme de Marcos Prado


  • Melhor documentário na França – 2005
  • Melhor documentário em vários outros pequenos prêmios, júri público, e jornalistas;
  • Melhor longa metragem
  • Melhor fotografia
  • Melhor documentário – Rio 2004
  • Melhor documentário – S. Paulo-2004

A MISSÃO

“A minha missão, além de eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade: Seja a mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara... ou então, ensinar a mostrar o que eles não sabem.” 
Os Inocentes

“Não tem mais inocente. Tem “esperto ao contrário”. Esperto ao contrário tem, mas inocente não tem não...  Vocês é comum, mas eu não sou comum não. Só o formato que é comum. Vou explicar tudinho pra vocês agora:
Cegaram o cérebro, o gravador sangüino, e o meu eles não conseguiram, porque eu sou formato gente, carne, sangue, formato homem, par, eles não conseguiram!... A bronca  deles é essa!... do trocadilo!... trocadilo, amaldiçoado,excomungado, hipócrita, safado, canalha, indigno, incompetente... Sabe o quê que ele fez?  Mentir pros homens, seduzir os homens, cegar os homens, incentivar os homens e depois jogar no abismo...(...) Foi isto que ele fez. Porisso que eu to na carne, sabe pra quê?  Pra desmascarar ele, com a quadrilha dele todinha. Eu derrubo!.. Derrubo,  ele sabe que eu derrubo (...) quer me desafiar? É ruim, heim?
Ele é tão poderoso ao contrário, que eu, até depois de a carne, velhinha desse jeito, feia desse jeito, boba desse jeito... ele ainda quer mais!...   Ai, ai!... é mole? Que bobo, rapaz!...

Ó lá, os morros, as serras, as montanhas, a paisagem, e Estamira!...  Estamar...Estasserra...Estamira está em tudo quanto é canto...tudo quanto é lado... até meu sentimento mesmo vejo... todo mundo vê Estamira!... 
(Instrumental)

Felizmente, nesse período que eu comecei a revelar e cobrar, a verdade, sabe oq eu é que acontece?  felizmente, tá quase todo mundo alerta.  Erra só quem quer.

(Instrumental) 
O lixão: A descarga

Isto aqui é um depósito dos restos. Às vezes é só resto. E às vezes vem também o descuido. Resto e descuido.

Quem revelou o homem como  o único condicional, ensinou ele  conservar as coisas. E conservar as coisas é proteger, lavar e limpar. E usar mais, o quanto pode. Você tem sua camisa. Você está vestido, você está suado: você não vai tirar a sua camisa e jogar fora... Você não pode fazer isto. 
Quem revelou o homem como o único condicional, não ensinou a trair, não ensinou a humilhar, não ensinou a tirar....ensinou a ajudar...

Miséria, não. Mas as regras, sim. Economizar as coisas  é maravilhoso, porque quem economiza, tem.  Então as pessoas têm que prestar atenção no que eles usam, no que eles têm, porque “ficar sem”, é muito ruim.

O trocadilo fez de uma tal maneira, que quanto menos as pessoas têm, mais eles menosprezam, mais eles jogam fora, quanto menos eles têm!...

Eu, Estamira, sou a visão de cada um.  Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira (fazendo um jogo de palavras com “mira” e “visão”!...). Eu me sinto orgulho e tristeza por isto. Porque eles, os astros negativos, ofensível, eles sujam os espaços, e querem... e querem...e sujam tudo.

A Criação

A criação toda é abstrasta: os espaços inteiros são abstratos, tudo é abstrato, Estamira também é abstrata.

Visivelmente, naturalmente, eu tenho a impressão de que se eu desencarnar, eu tenho a impressão que eu serei muito feliz. E talvez eu poderei ajudar alguém. Porque o meu prazer sempre foi esse: ajudar alguém, ajudar um bichinho.
 Tem 20 anos que eu trabalho aqui. E eu adoro  isto aqui. A coisa que eu mais adoro é trabalhar. 
(...) 
DEFINIÇÃO DO UNIVERSO:

Tem o eterno, tem o infinito, tem o além, e tem o “além dos além.”. o além dos além vocês ainda não viram. Cientista nenhum ainda viu o além dos além . 

CONCEITO de PÓS-MORTE

Sabe de uma coisa? O homem, depois que ele fica visível, depois que ele nasce, ele, depois que desencarna, a carne, se for pro chão, derrete,  fica só os ossos, os raios, cabelos. E aí ele fica formato, a mesma coisa, mas só que fica transparente. Meu pai está perto de mim, minha mãe, meus amigos...
A gente fica formato transparente, e vai... vai, como se fosse um pássaro... voando...  Ó, lá em casa eu vejo é muito, vai muito, lá em casa.(...)

EM CASA:

(dialeto de Estamira). 
HISTÓRIA:

Eu nasci dia 07 de abril de 1941. A carne e o sangue. O formato. Formato homem, par. Mãe e avó.  E aí então, sabe o que que aconteceu? eles levaram o meu pai em 1943. Aí... nunca mais o meu pai voltou!...
Meu pai chamava eu de tanto nomezinho... chamava eu de uns nome engraçado: “merdinha”... neném... fiinha do pai...
Aí então, depois, sabe o que eles falaram? Depois eles falaram que o meu pai morreu. E aí então minha mãe ficou pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo comigo.... Que judiação, não? Coitada da minha mãe, mais pertubada do que eu.  Bem, eu sou pertubada, mas lúcido, e sei distinguir a pertubação. Mas coitada da minha mãe não conseguia.  Mas também, pudera, eu sou Estamira!... Se eu não dou conta de distinguir a pertubação, eu não sou Estamira...eu  não era...eu  não seria. 

( “ intervenção do real radar... verificar...)

CONTROLE REMOTO - DEFINIÇÃO

E ainda tem... ah o controle remoto.
Tem o controle remoto superior, natural, e o controle remoto artificial.
O controle remoto é uma força quase igual, assim mais ou menos, igual à luz,  à eletricidade.. é o seguinte: na carne e no sangue, tem os nervos.  Os nervos da carne sangüínea vêm a ser os fios elétricos. Os deuses, que são os cientistas técnicos, eles controla, eles vê aonde eles conseguiu. Os cientistas, determinados, trocadilos, eles conseguem porque o controle remoto não queima: torce. O cientista tem o medidor que controla, igual o ferro, que tem os números: tem pra lã... tem pra... é... é simples, né? 
(...) 
Passei menos mal depois daquele dia. Mas depois voltou a atacar... Aqui ó, torcia... o controle remoto mesmo, é a força... a câmara artificial, que faz mal do caralho... é na costela, é em tudo quanto é lugar  (... ai...)  até na cabeça.
O controle remoto tudo é um só. Esse controle remoto, tem o artificial e o natural.
(...) agora,  tem o registrador de pensamento, você já viu? Não?! Puxa vida!... é a mesma coisa que... “eletroesferograma”...
Escutou? (som de trovoada)... Trovão!...Ih, é mesmo!...  lá vem o relâmpago. Lá em casa ele sai de baixo da cama, e  ( imita  o som do relâmpago e do trovão, simulando uma tempestade, e se diverte com isto). 
 NATAL DE 2001 

O natal pra mim, tudo que nasce é natal. E ainda mais essa confusão misturada com o sofrimento de Jesus... Eu não tenho nada contra o homem que nasceu, entendeu, prá eles o que era bom era o deus, depois eu revelei quem é deus, porque felizmente eu posso, sem prevaleção, sem repugnância, com muito orgulho, com muita honra, Estamira, Eu. Posso revelar, revelei porque posso, porque sei, consciente, lúcido e ciente, quem é deus, o que significa deus e outros mais. Ó, cê, quer saber? Eu não tenho raiva de homem nenhum.  Eu tenho é dó. Eu tenho raiva, sabe de quê? Do trocadilo!...do esperto ao contrário, do mentiroso, do traidor. Eu tenho raiva, ódio, nojo!... 
(tempestade)

Jesus correu e escondeu inderna de  antes de nascer.O jesus que eu conheço como Jesus, filho de Maria, filho de Israel, filho de rua... eu já tive dó de Jesus, mas eu não tenho mais dó. Eu já tive dó de escravo, não tenho mais dó de escravo também não. (...)
Me chamaram de Jesus, me chamaram de sangue de barata, de sangue de cazuza, me chama de Maria que é a mãe de Jesus... que deus é esse? Que jesus é esse? Quê que é isso?  (...)

Se eles acham que eu sou feiticeira, eu sou feiticeira... mas não sou feiticeira falsária, nem perversa não... mas eu sou ruim, perversa eu não sou. Mas ruim eu sou... Sou ruim e não vou deixar de ser ruim. Sem perversidade na cobrança... na cobrança. Mas eu conto até 3, eu conto até 10, eu tenho o controle superior.  (... interagindo com a tempestade, como se a estivesse desafiando, ou invocando, Estamira dá um grito antes de rugir o trovão. Tempestade, chuva, vento... Estamira permanece no meio da tempestade e do lixo, como se fosse este o seu nicho ).
  
 NOÇÃO DE INFERNO – UTILIZANDO OUTRA DENOMINAÇÃO 

O além do além é um transbordo. Você sabe o que é um transbordo?  Bem... é toda coisa que enche, transborda.  Então, o poder superior, o real, a natureza superior contorna tudo pra lá, pra'quele lugar. Assim como as reservas, tem as reservas nas beiradas, ninguém pode ir lá, e aqueles astros horroroso, irrecuperável, vai tudo pra lá, não sai de lá mais nunca. Pra esse lugar que eu to falando, o além do além, lá pr'as beiradas, muito longe, muito longe, muito longe..., sangüino nenhum pode ir lá... Vocês não vai entendendo de uma vez só, que eu sei. Porisso que eu ainda estou aqui, visível, formato homem, par. Homem par, não to falando homem impar. Formato homem ímpar, é vocês. Formato par é a mãe; a mãe é formato par, e os ímpar, é o pai.

( tempestade: Estamira “briga” com o seu pai astral)

Eu transbordei de raiva... transbordei de ficar invisível...com tanta hipocrisia, com tanta mentira, com tanta perversidade, com tanto trocadilo... Eu, Estamira...

As doutrinas erradas, trocadas, ridicularizou os homens... ridicularizou as m... é isso mesmo, ele vai me pagar... faz o  homem expor ao ridículo pra eles, fez o homem ficar pior do que “quadrupulo” ... então que deixasse os homens como fosse antes de ser revelado como o único condicional!... 
(...)

Daqui a 2 dias, isso aqui já  ta cheio... eu não gosto de falar lixo não, mas vamos falar lixo... é cisco, né?  É caldim, disso, é fruta, é carne, é plástico fino, é plástico grosso, é não-sei-o-quê-lá mais... e aí vai azedando, é laranja... é isso tudo...e aí faz espoqui, e aí imprensa, azeda, fica tudo danado, e faz a pressão, e aí vem o sol e esquenta, mais o fogo de baixo... e aí forma o gás, o  gás carbônico, que serve pra cozinha, prá qualquer coisa, mas ele é forte, ele é branco... Quem não consegue, tem gente que não se habitua com ele, não dá conta, é  tóchico, (cf sua pronúncia). Felizmente,  graças aqui, eu tenho aquela casinha lá, aquele barraco. Eu acho sagrado, o meu barraco, abençoado, e eu tenho raiva de quem fala que aqui é ruim. Saio daqui, eu tenho pra onde descansar.  Isso aqui é que é a minha felicidade. 

CAROLINA

Ela é igualzinha ao pai, a cara!...

“Meu pai era aquele cara grosso, temperamental, mas, bom, ele era bom, e gostava muito dela, eles brigaram muito” ( Estamira chama a atenção do neto para não furar o pé no prego) . 
“Apesar de parecer gostar muito dela, mas ele tinha outros casos, outras mulheres. Era uma vida, né, uma vida de verdade. Aqui, vivendo nesta vida, a gente tem que se esforçar pra ela (...) continuar vivendo porque eu não acredito que  ela esqueceu tudo, eu acho que ela vive nesse  mundo é pra esquecer o que já viveu.  Errou muito, ele, mas como ele não está aqui pra se defender, a gente não pode falar nada”
-Enquanto você estiver aqui, ele está – diz Estamira, acendendo um cigarro.
-Mas mesmo assim, sangue é sangue, pai é pai... ele morreu eu gostando dele...

Quando eu fui pra Goiás, sabe o que aconteceu?  2 PM pra bater em mim, porque eles queriam que eu aceitasse Jesus no peito e na raça, e deus, no peito e na raça.
-Ela é contra Jesus e contra Deus!...
-E você? Eu não sou contra, presta atenção!...
-Mamãe, cada um tem um ponto de vista!...
- Ponto de vista porra nenhuma, deixa de ser otária!... ainda ta com isso ainda? Lê essa porra aí, deixa de ser otária, abestalhada!.. (Estamira joga um livro dos Testemunhas de Jeová para Carolina)

Jesus, nem se... eu não sou contra ele, eu tenho dó dele, eu conheço ele, “inderna”desde antes dele nascer... desgraça de tanta burrice, tanta teimosia, eu não falei com vocês no hospital? ( Estamira pergunta  para o cinegrafista )
-Mãe, eu to falando que eu tenho o meu ponto de vista e você tem o seu!.
-Que ponto de vista? Tem ponto de vista errado!
-A senhora gosta de rosa e eu gosto de amarelo, e aí?
- Que gosta de rosa e amarelo o quê!... cor não tem nada a ver com isso!...
Eu sou obrigada a gostar do rosa da senhora? A senhora gosta de uma coisa e eu gosto de outra coisa
- Quem falou que eu não gosto dele? Só não é isso que vocês pensam!...

-Mas a senhora...
-Não é isso que vocês pensam!...
-A senhora sabe o que eu penso, por acaso? A senhora não sabe o que eu penso!...
- Esse livro aqui é Testemunha de Jeová!... ( entra o filho, Hernane)
-Ele já leu um bocadinho... de cada um tira um conto- Ah, mas eu leio muitos livros... eu leio de todas as igrejas, aí eu posso tirar uma conclusão... eu aprendo assim, de acordo com a fé que Deus me deu...
- caiu!... caiu!... caiu, ta viciado, caiu!...
- bíblia fala...
-Que bíblia? Papel aceita até levar no banheiro... papel não tem defesa!... ainda mais quando as pessoas usam o nome de deus pra fazer piada...
-pra debochar
-“stopa”, “stopa” com esse argumento porque senão a gente vai até amanhã de manhã!...
(Estamira sai rindo, e Carolina sussurrra:)
- Ela não é louca, mas ela não é completamente 100%, vê? Ce vê o que ela fala?  (...)
-Ela precisa de um tr...
-Deus me livre, mas ela morrerá muito mais feliz se for no meio da rua, do que numa clínica... ela prefere viver 2 anos livre, do que viver 5 anos, bem, trancada num lugar, você sabe disso...
- Mas você não está me entendendo. Eu não vou dizer que ela vai ficar toda a vida, o resto da vida, ela vai ficar até pelo menos ela... entendeu?  Porque eu acho mais que o problema dela é o “sistema nervoso”.
-Só que pra ela ficar lá, teria que ser dopada, amarrada. Pra mim, ele é mais forte que eu, nesse caso. Se tiver que dopar e amarrar, é com ele mesmo... eu já não... não tenho  coragem de deixar...

(...)

LÁ FORA

Ta dando controle remoto aqui ...( arroto) ...  ta vendo? 

CAROLINA

-Ela vivia com meu pai numa casa boa, meu pai era mestre de obra, ganhava razoavelmente bem, tinha uma kombi, uma belina,.. ela andava com pecinha de ouro, eu também tinha, bastante, que meu pai dava...
Vivia bem com ele, mas o meu pai judiou muito dela, com traição, levava mulher até para dentro de casa, dizendo que era colega...
Aí ela não aceitou, começou a brigar, a xingar ele, ele puxou faca pra ela, ela puxou pra ele, aquela brigarada toda, aí botou ele pra fora de casa. Aí de lá começou uma luta, né!...

(...)

A culpa é do hipócrita, mentiroso, esperto ao contrário, entendeu? Que joga pedra e esconde a mão.  Do qual, antes de ontem eu tive um abriga com o meu próprio pai. Meu pai astral. O sr. Ouviu? O  toró!... O sr. Sabe o que é que era o toró?  Eu ( bate no peito) estava brigando com o meu pai... astral.

(...) 
APÓS UMA RODADA DE CACHAÇA NO LIXÃO:

-Se eu não fosse casada, e esse sr. Não fosse casado, eu casava com esse sr!...  ( o homem, amigo de Estamira repete  o mesmo)
- Eu já casei muitas vezes, já, to separado...não quero saber mais de mulher não. Prefiro ficar sozinho e Deus
- Tocar punheta!...
- Isso, tocar uma punheta que é melhor!...
-“ Colombina, onde vai você... eu vou dançar o iê-iê-iê!...”  (canta Estamira)
(...)

-Eu te amo... mas vc é indigno, incompetente, e eu não te quero nunca mais... eu lamento... eu te amava... eu te queria... mas você é indigno, incompetente, otário, pior do que um porco sujo, divirta-se, faça à vontade, que eu prefiro o desprêzo... Ande, nunca mais encostarás em mim...             ( Estamira pronuncia estas palavras após cantar em falsete e em idioma confuso, uma música que mais se parece um lamento). 
CAROLINA

-Minha mãe, quando trabalhava no Jardim Gramacho, logo quando ela começou, ela passava 2 semanas, às vezes uma semana, dormindo ao relento, às vezes em barraca, às vezes ao relento mesmo lá em cima, lá na rampa, depois ela vinha pra casa, tomava banho, ficava toda bonitinha... depois voltava de novo e assim ia...Ficou 5 anos assim. Eu e meu irmão um dia chamamos ela: “mãe, sai dessa vida lá no lixão... lá é difícil, as pessoas têm que dormir no relento... e coisa e tal. E conversamos, é perigoso achar um negócio, fura você, te contamina... ela quis sair.  Aí ela foi trabalhar no Mar e Terra ( um superrmercado que foi posteriormente comprado pela Sendas) . E quando ela saía, dia de sexta-feira ou sábado, ela se reunia com os colegas (...) e aí ia parar pra beber uma cervejinha, e na hora de ir embora, cada um ia pro seu canto, e ela vinha sozinha. Aí foi estuprada uma vez no centro de Campo Grande, foi estuprada uma segunda vez aqui nessa mesma rua que eu moro... na época não tinha nem luz aqui... ela falou que o cara fez sexo anal com ela, ela gritando: “para, pelo amor de Deus”  -“Que Deus, esquece Deus...” o estuprador falava pra ela, e fez sexo com ela de todas as formas que quis com ela, e depois mandou ela ir embora.
Aí ela chorava, contava, chegou em casa muito revoltada, né. Nesse tempo, ela não tinha alucinação, não tinha pertubação nenhuma, muito religiosa, e acreditava que Deus ia... que quilo que ela tava passando era uma provação.
Começou a alucinação assim: ela começou a chegar em casa e falar assim: “D. Maria, ce sabe que quando eu cheguei lá no meu quarto hoje pra trabalhar, alguém tinha feito um trabalho de macumba pra mim... agora cê  vê se eu acredito nessas coisas, nessas palhaçadas, o pessoal ao invés de trabalhar para adquirir as coisas...” aí pisou na macumba, jogou a tal da macumba fora, fez não sei o que lá mais... “Eu vou acreditar nessas coisas nada, que Deus me protege, Deus é tudo... é Deus que me guia e me guarda...”
Aí um mês depois  começou: “Ó, tem gente, eu tenho a impressão de que tem gente do FBI atrás de mim... eu tenho a impressão de que quando eu pego o ônibus, tem alguém me filmando dentro do ônibus, eu não sei pra quê, com câmera escondida”.
Um dia ela sentou lá no quintal da minha sogra e aí olhou... olhou... olhou... e falou:  “ isto aqui é o poder, isto que é tudo que é real...”
Daquele dia em diante eu acho que ela desistiu mesmo de Deus, agora é só “eu”, e só “eu”, e o poder dela e acabou...

(...)

Trocadilo, safado, canalha, assaltante de poder, manjado, desmascarado  (cuspe).
Me trata como eu trato, que eu te trato. Me trata com o teu trato, que eu te devolvo o teu trato. E faço questão de devolver em triplo.  Onde já se viu uma coisa desta? A pessoa não pode andar nem na rua que mora, nem trabalhar dentro de casa,  e nem em trabalho nenhum, em lugar nenhum...
Onde o senhor (...), que deus é esse, que Jesus é esse?  Que só fala em guerra, e não sei o quê, não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestaiado... quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem anda com deus dia e noite, noite e dia na boca, e ainda mais com deboche, largou de morrer?  Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome?  Ah!... não dá!...
Não adianta, ninguém, nada vai mudar  meu ser. E eu sou Estamira, aqui, ali, lá... no inferno, nos inferno, no céu, no caralho, em tudo quanto é lugar, não adianta, quanto mais essas desgraças, esses piolhos de terra suja, amaldiçoado, excomungado,, que renegou os home como o único condicional, mais ruim eu fico, mais pior eu sou. Perversa eu não sou não, mas ruim eu sou. E não adianta. Antes de eu nascer eu já sabia de tudo. Antes de eu estar com carne e sangue, é claro, se eu sou a beira do mundo. Eu sou Estamira. Eu tô lá, eu tô cá,  eu to em tudo quanto é lugar. E todos dependem de mim. Todos dependem de Estamira. Todos. E quando desencarnar vou fazer muito pior.

(...) 
HERNANE

-O sr. Leopoldo, falecido Leopoldo, quando tava vivo, o italiano, meu pai de criação, não deu dinheiro nenhum pra ajudar a minha mãe não.  Então eu fiquei ligando a semana toda pra esses hospitais que tratam da cabeça das pessoas, pra ver se tinha vaga pra poder internar ela. Eu tinha combinado com ele assim: Fui no hospital de Caxias. Fui primeiro com o “Velho”, com o carro dele, aí consegui uma ambulância. Aí fomos pra lá pra o lixão. Aí chegou lá até os bombeiros tava com medo de encostar a mão nela, porque  ela queriamorder e começava a gritar nome de entidade de macumba, e daquele jeito, chega espumando, parecia um bicho mesmo, gritando. Aí pegaram uma corda e amarraram ela, com a mão pra trás assim, enrolada. Aí fomos pra o hospital de Caxias.  Chegou lá, a menina falou assim: “ não, aqui não dá pra internar que aqui não tem messe tratamento”. Tinha que levar pra Engenho de Dentro.  Aí fomos pra Engenho de Dentro  (...).   Os que entrar ali não saem. Só com a autorização do responsável.  Aí comecei a preencher a ficha. Aí não quis aceitar, mesmo com os bombeiros lá falando , conversando. Aí tivermos que voltar e le4var ela pra Caxias de novo, aí mandaram eu esperar ela acordar. Quando ela acordou, eu falei: “mãe, vamos embora”, ela já veio me mordendo... Aí eu falei: “O que é que eu posso fazer?” e deixei ela lá... 

A desgraçada da família itália, juntamente com aquele meu filho, me pegaram aqui dentro, como se eu fosse uma fera, um monstro, algemado. E aquele meu filho que ficou contaminado pela terra suja, pelo baixo nível, pelo insignificante, parecendo um palhaço lá dentro do hospital... a coisa mais ridícula!...

Eu não vivo por dinheiro. Eu faço dinheiro. Eu não faço, é você que faz. Eu não vivo pra isso, ou por isso. ‘Cê ta vendo eu fazer?  Entendeu agora?

Controle remoto atacou. Desde manhã. A noite inteira pertubando, os astros negativos, ofensível, eles ‘tão “pelejando” pra ver se atinge uma coisa que chamam de coração meu, ou então a cabeça... eles ‘tão “fudidos”!... Tão poderoso ao contrário, o hipócrita, safado, traidor, mentiroso, manjado, desmascarado... ele se mete com a minha carne visível, com a minha camisa sangüina, carnívora... Estamira... ele ta “fudido” comigo, até pra lá dos “isquinto” dos infernos!...

(...)

Aí eles descarregarma uma coisa muito importante aqui, que é o de comer: enlatados, conservas... amanhã, por causa disso, eu vou preparar uma bela duma macarronada... macarrão, lá eu já tenho... ‘Xô ver o que que é isso...
Agora, no momento, eu não sei nem o nome disso aqui... Mas  é conserva.  É preparado lá fora... E boa. Aqui, isso também eu ponho no... eu  coloco purinho: palmito. Veio uma carga muito boa, olha, ta vendo? Eu ponho no molho de macarrão, também... E às vezes fica até melhor do que no restaurante... Pra quem sabe preparar, né.

Tem o lúcido, que dá aquele que eu escrevi lá. Tem o lúcido doente aqui. Tem o ciente... tem o ciente. O ciente é o saber. Do qual, Jesus não sabe ler nem escrever, mas ele aprendeu toda coisa, de tanto ele ver, o lucidar.
“... atua lucidez não te deixa ver...” ( verso de um pagode famoso no Rio de Janeiro).
A inlucidez e a lucidez (repete). E o sentimento, né. Consciente, lúcido e ciente. E tem o sentimento. O que fica colhendo, gravando, é o sentimento. Agora, por exemplo, sentimentalmente,  visivelmente e invisivelmente, formato transparente, conforme eu já lá te disse  (... parece entrar em transe)... eu estou num lugar bem longe... num espaço bem longe... Estamira ta longe... Estamira ta em todo lugar... estamira podia ser irmã ou filha ou esposa de espaço, mas não é... espera que eu já tô descendo... Ó lá, ó onde eu estou...Eu estou aqui e estou lá...

Vocês não aprendem na escola, vocês copiam. Vocês aprendem é com as ocorrências. Eu tenho neto com 2 anos que já sabe disso. Tem o de 2 anos, ainda não foi na escola. Hipocrisias, mentiras e “charlatage”.

Em seguida Estamira passa a pronunciar palavras e letras como se estivesse se comunicando através de um rádio amador, e depois fala em dialeto, simulando uma briga e depois um papo agradável. Em seguida, se despede com um “tchau”.

EM 13/03/2001 ESTAMIRA DIRIGE-SE AO CAPS DE NOVA IGUAÇU

Estamira sem carne, Estamira invisível, vê e sente as coisas todinhas. Porisso que eu sou Estamira.tem vez que eu fico pensando: mas eu não sou um robô sangüino, eu não sou um robô. Eu falei pra Drª Alice que minha cabeça tem hora que parece que dá até choque assim: “tiiimmmm.... tiiimmm!...” Não dói não, dá agonia, dá choque, bate assim igual a onda do mar: “Tcháaaa!... igualzinho a onda do mar..
- há há há há há.... (gargalhada de desprezo) ... A drª passou remédio pra raiva... há há há há há há...
E eu fiquei muito decepcionada, muito triste, muito... profundamente com raiva dela...falar assim uma coisa daquela?  Ela ainda disse, sabe o quê? Que Deus livrasse ela!... que isso é magia, telepatia, “amide”, e o caralho... pô, pra que,  ela me ofendeu demais da “contera”...
Aqui ó, ó, o retorno...,daqui a 40 dias... Presta atenção nisso... Olha, e ainda mais, eu conheço médico, médico, médico...direito, entendeu?
Ela  é copiadora... eu sou “amigo” dela, eu gosto dela, quero bem a ela... quero bem a todos, mas ela é copiadora... eles estão fazendo, sabe o quê? Dopando, quem quer que seja, só com remédio!... não pode, o remédio... quer saber mais do que Estamira? Presta atenção, o remédio, é o seguinte:
Se fez bem, para, dá um tempo. Se fez mal, vai lá, reclama, como eu fiz,  3 vezes. Na quarta vez  que eu fui atendida. Mas eu não quero o mal deles não... eles estão copiando... o tal de Diazepan então... se eu sou louca, visivelmente, naturalmente, eu fico mais louco...  entendeu agora? O tal de Diazepan... não, eles vão lá e só copiam. Uma conversinha pra cá, e só copiar, e tome!... Ah, isso não pode não sr.!... como é que eu vou ficar... todo dia, todo mês, cada marca... e eu vou lá “panhar” o mesmo remédio? Não pode, é proibido... além... além... não pode... entendeu agora? Eu não estou brincando, eu estou falando sério, aqui ó, ‘cê vê como é que é o remédio...  e aí eu devolvi a ela porque ela, os viciados deles, porque não sou eu, às vezes pode precisar... está aqui, porque na faculdade do exército, como eu fui operada aqui, ó, entendeu? Eles me deram o remédio... eu fui lá, na faculdade de Botafogo, faculdade do exército, em Botafogo, e devolvi na farmácia, falei com o médico, e devolvi. Porque eu não estava precisando deste remédio. Quem sabe sou eu... quem sabe é o cliente... fica se viciando...dopando, vadiando, pra Terra isso não é o  (...) sua excomungada, desgraçada,  (...), manjada, desmascarada, desgraçada...
Aí, ó, tudo que ela passou pra mim, eu bebi. A quantia, os limites, toda coisa tem limites, esses remédio são da quadrilha da armação do dopante, pra cegar os homens, pra querer deus... deus falsário, entendeu? Esses remédios são dopantes, pra querer deus falsário,  entendeu? Ela falou que deus livrasse ela, o trocadilo é ela.

MARIA RITA

(relato da mãe de criação da filha de Estamira)

“Mais ou menos há 12 anos atrás eu já era motorista de caminhão e era voluntária de um hospital.  E aí eu conheci uma pessoa, uma senhora muito bacana, e um dia ela chegou lá em casa com essa menina pequenininha pelas mãos e falou assim: ‘Ângela, eu tenho um presente para você’.  E aí eu falei:  ‘não vai me dizer que é essa coisinha aí...’  ela falou: ‘é esse bichinho do mato aqui que eu to trazendo para você cuidar...’ Aí eu falei assim: ‘de onde ela saiu?’  Aí ela me contou a história da menina, que a menina vivia na rua com a mãe, que a mãe catava lixo, e que o irmão dela, o mais velho, não queria aquela vida pra menina. Aí ela falou: ‘Vou marcar uma reunião com os irmãos dela para eles te conhecerem,  porque há um impasse: a irmã quer botar a menina num colégio interno, o irmão, acha que ela deve ir pra uma casa de família, para ela ter um lar’. Mas o irmão era o mais velho, decidiu o que deveria decidir... e tudo bem, fiquei com a menina. Até aí então eu só ouvia falar da Estamira: que ela era de rua, que era mendiga, que catava lixo, que vivia disso... e aí um ano depois começou a levar a menina pra mãe ver. O encontro foi dramático demais, a menina tremia  igual vara verde, quando viu a mãe, aí eu falei pra mãe que... eu tive que mentir pra mãe pra ela me respeitar um pouco, não querer tomar a menina, né, que a gente tinha aquele medo ainda. Até eu falei pra mãe que eu era assistente social de um colégio interno do governo,e que o juiz que me deu posse da menina, de tirar a menina da rua, inventei uma historinha, com o consentimento do Hernane, pra a mãe acreditar e não querer levar a menina de volta.  Ela queria muito uma família, um lar, então ela se adaptou com muita garra a nós, muita garra mesmo...”


-Maria Rita, entra aqui!...
-Boa tarde!...
-Boa-tarde, “cara do pai”!... (beijo). “Trem” bonito!... Uai, mas porque é que demorou  desse tanto?
-O carro enguiçou!... A srª  tá bem, mãe?
-Tô!...

Olha, pra mim, que vivi lá em Jardim Gramacho, é um local de trabalho...  Sei lá, eu tenho uma imagem um pouco macabra daquele lugar lá onde eu vivi, porque eu vivi muita coisa... e a maioria da parte de que vivi lá foi ruim... Eu era uma que catava entre os lixos... eu tinha uns 6 anos...  eu fui morar com essa minha madrasta eu (...) tava fazendo 8... e era horrível, tinha que pedir... pedir muito, trabalhava muito pra conseguir um sanduíche. É muito triste, porque eu saí de perto da minha mãe, meu irmão me tirou... e eu já com a cabeça... já cresci pensando em ajudar ela...  e ela é um pouco difícil de querer se ajudar...  e eu, sinceramente, se eu pudesse, não teria saído de perto da minha mãe, não...  mas, se “aquele” Gramacho continuar, pode contar que ela vai querer continuar lá.

-Vamos preparar o macarrão?
-vamos preparar o macarrão!...
-Eu vou ser sincera, queria cozinhar igual à minha mãe...
-Hum?
-Ela cozinha  bem!...
-Não chega a tanto!...

Minha mãe  tá com medo do mundo, porque ela falou uma vez assim pra mim: que acha que  Deus não existe,. E quando fala em Deus ela fica nervosa... eu acho que um determinado tempo da vida dela que se apagou dentro dela. A fé, o que falta na minha mãe é a fé.

HERNANE:

- eu acho que, o que ela entende como o real poder, que Deus é a posição, que é supremo...
-deus porra nenhuma, não sabe nem o que quer dizer “deus”!...
-no livro de Gênesis fala:  ( Hernane passa a ler um longo trecho da Bíblia, enquanto Estamira se irrita lá na cozinha)
- Que tristeza!...( continua xingando e vai para fora de casa) Esse palhaço, abobado!... Inferno!... vai pro céu, vai ´pro caralho!... covarde!... vai pra desgraça, pro caralho!... vai tomar no cu, abestalhado!... abestalhado, covarde...  Dentro da minha casa!... dentro da minha casa, pô!... Eu não caguei essa casa não!...  Não foi cagado não!... foi trabalhado, suado, dia e noite, no sol e na lama!... vai pr’o céu, vai pr’o caralho... vai tomar no cu!... baixo nível imundo!... Esse é o resultado de... que coisa, não?
-Bom, Shalon, Adonai!...( diz Hernane e sai calado, sem responder nada)

-esses pastor tudinho é vigarista... vagabundo... todos eles, pior do que os padres...    absoluta, consciente, lúcido e ciente... absoluta!...
Sou doida, sou maluca, sou avogada, sou essas 4 coisas... mas porém, consciente, lúcido e ciente... e sentimentalmente.  Só comecei a revelar em ’86, a revelar de verdade mesmo, porque era muito abuso. Porisso é que eu estou aqui revelando que o cometa ta na minha cabeça.  Sabe o que significa a palavra “cometa”?  Comandante!... comandante natural. Comandante. Então, conforme eu tava (... dialeto). A constelação (...) todo meio... ( nesse momento Estamira parece estar “fora de órbita”).
Eles ficaram com raiva do cometa. Determinados astros perversos, astros negativos, ta com raiva do cometa porque o cometa achava que ele não deveria procurar uma carcaça como a minha. Procurar uma carcaça como Maria israelense, mãe de Jesus, que concebeu Jesus  filho de Davi carvalhense...(...) ... aaaiiii !!( Estamira geme de dor, um gemido que vem lá das entranhas, e pode-se perceber que ela sofre muito). Mantenha o controle... mantenha o controle...
O cometa é grande... é porisso que eu passo mal... a carcaça, a carne, porque ele é muito grande... ele não é do tamanho que vocês vêem. Daqui ele não é lá no alto espaço, não...lá no alto espaço é o reflexo... ele é aqui embaixo, ele não é lá em cima não... ele é aqui embaixo... é lá onde ‘cês vêem o reflexo... a lua é lá no morro acolá... Não é lá assim não... é o reflexo... é o contorno... aaaaaiiiiiii!!! Mantenha o controle... mantenha o controle...

(...) 

Isso aqui é um disfarce de escravo...escravo disfarçado de liberto... a Isabel soltou eles, e não deu emprego pros escravos... passam fome, comem qualquer coisa, como animais, não têm educação... aí então, é muito triste...

(Natal de 2001)

Foi combinado: “Alimentai-vos o corpo, com o suor do próprio rosto”.  Com sacrifício. Sacrifício é uma coisa, trabalhar é outra coisa. Absoluta!. Eu, Estamira, que vos digo, ao mundo inteiro e a todos: trabalhar não; sacrificar.
( ...)

Todo dia ele deita lá( Estamira refere-se ao companheiro do lixão, de copo e de infortúnio, que ajeita-se para dormir perto do fogo aceso). E quando não deixa ele deitar lá, com medo de ele queimar, ele acha ruim.  Eu fico com dó demais, ele é muito bom. Ele sabe ler e escrever muito, e mesmo assim acontece essas coisas. É o trocadilo que fez isso com as pessoas.  O homem não pode ser incivilizado. Todos os homens têm que ser iguais.  Tem que ser comunista. Comunismo é igualdade. Não é obrigado todos trabalhar num serviço só, não é obrigado todos comer uma coisa só, mas a igualdade é a ordenança que deu quem revelou o homem como o único condicional. E o homem é o único condicional, seja que côr for. Eu sou Estamira, eu não importo.  Eu podia ser da cor que fosse.  Eu, formato Homem, par, mas eu sou Estamira, mas eu não admito, eu não gosto que ninguém ofende cores, nem formosura.  O que importa, bonito, é o que fez e o que faz.  Feio é o que fez e o que faz. Isso é feio. A incivilização é que é feio. Comunismo superior. O único comunismo.

(...)

Eu, Estamira,  visível e invisível, eu tenho muitos sobrenomes...

Nise da Silveira - apresentação


O Encontro de Estamira com Nise da SIlveira


Encontros notáveis


         Aprendi com o pensamento Junguiano, que os “acasos” são, ou podem ser, significativos.  A ideia da sincronicidade nos leva a pensar não na relação temporal de causa e efeito, mas na ocorrência de fatos sincrônicas, que espelham o momento presente, o agora.  Interessante e importante abordagem  que abre portas e janelas significativas da realidade.  Dessa forma, mesmo os fatos do cotidiano ganham significado, alma, como diria o pensador pós junguiano James Hillman, de quem gosto muito.
         Partindo daí, Imaginei a riqueza desse feliz encontro entre essas duas figuras: Nise da Silveira e Estamira.  Que se tenha conhecimento, esse encontro nunca ocorreu de fato; seu primeiro encontro real se deu nesse evento e nesses texto, que as uniu.
Depois da sessão, encantadas uma com a outra, marcariam encontro no Museu de Imagens do Inconsciente em Engenho de Dentro, ou na Casa das Palmeiras, em Botafogo;  instituições criadas por Nise da Silveira no Rio de Janeiro.
         Duas mulheres com origens completamente diferentes. Nise da Silveira nasceu em Alagoas, em 15 de fevereiro de 1905; estudou medicina em Salvador e passou grande parte de sua vida no Rio de Janeiro, morando em Santa Teresa e depois no bairro do Flamengo. Estamira Gomes de Souza viveu no lixão de Jardim Gramacho, Duque de Caxias durante 22 anos; era analfabeta, negra e pobre. Diagnosticada como doente mental nunca foi internada, mas poderia ter frequentado o Hospital de Engenho de Dentro, ou a Casa das Palmeiras, onde a Dra. Nise trabalhou.
         Ambas conheciam na pele a exclusão, e eram consideradas loucas. Estamira era diagnosticada como esquizofrênica, tomava remédios psicotrópicos, e vivia na miséria; Dra Nise da Silveira por ser mulher numa profissão na época dominada por homens, nordestina, questionadora e humanista. Rebelou-se contra os métodos cruéis e violentos impostos aos doentes mentais como os eletrochoques, os choques insulínicos e a lobotomia. Afirmava que eram o carinho e o acolhimento os principais medicamentos no atendimento a esses pacientes, e apostava radicalmente no valor expressivo e terapêutico das imagens. Como percebia que os pacientes tinham muita dificuldade em usar as palavras e a comunicação verbal direta, entendeu que através da criação de imagens elas podiam comunicar melhor suas emoções e seu riquíssimo mundo interno, no setor de terapia ocupacional do hospital. Isso fez com que ficasse rotulada entre os médicos como exótica, ou louca, fama que aumentou expressivamente quando ela começou a admitir e mesmo a estimular a presença de animais, cães e gatos nos ateliers de pintura e escultura.  Com sua excepcional humanidade e sensibilidade, percebeu que os pacientes conseguiam expressar afeto e cuidado mais facilmente com os animais que com outros humanos. Considerava que a enorme importância dessas “pontes afetivas”, capazes de retirar os chamados “doentes mentais” de suas ilhas de isolamento e depressão eram muito mais importantes que os eventuais riscos de contaminação que os animais pudessem representar. Essa postura era completamente nova em sua época.
         Mas Nise da Silveira conheceu também a perseguição política por suas ideias socialistas. Em 1936, foi presa durante 18 meses no presídio da R. Frei Caneca pela posse de livros comunistas durante a ditadura militar brasileira, e ficou profundamente indignada e inconformada com a presença de médicos cúmplices das torturas, funcionários dos órgãos de repressão. Durante esse período, conheceu Graciliano Ramos e virou personagem do livro “Memórias do cárcere”. Essa dura vivência ajudou-a a definir ideológicamente, que tipo de trabalho queria fazer, o que entendia por saúde. No período de 36 a 44 permaneceu com seu marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público por razões políticas. Durante seu afastamento fez uma profunda leitura reflexiva das obras de Spinoza, material que publicou em seu livro Cartas a Spinoza em 1995.
         A frase de Estamira: “sabia que tudo que é imaginário existe, tem e é?” certamente interessaria a doutora. Poderia ser usado como um lema ou um resumo de trabalho dessa brilhante médica brasileira que sempre acreditou nas imagens e na força expressiva do inconsciente.
         Imagino que se visitasse o Museu de Imagens do Inconsciente, Estamira se interessaria bastante pelas obras de outros pacientes expostos no museu. Veria muito de seu caos interior expresso nas formas e cores de outros “alienados”. Se houvesse espaço e oportunidade, provavelmente produziria ela mesma imagens tão fortes quanto suas frases e percepções de nosso mundo.
         Estamira representa o saber popular, intuitivo, não acadêmico em estado bruto. Algumas das pessoas mais interessantes e sábias que conheci nunca tinham pisado numa escola ou lido um livro. Mas eram sábias formadas na escola do cotidiano, na sabedoria do viver o dia a dia.
         Talvez a Dra. Nise se interessasse em conhecer o lixão de Gramacho e buscar nele material para trabalhos de reciclagem e reaproveitamento do lixo, técnicas que ela não usou em seu trabalho, mas que se tornaram necessárias e em voga na atualidade e que ela certamente aprovaria.
         Talvez comentassem o filme “Lixo Extraordinário” que mostra o trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz no mesmo lixão de Gramacho, usando reciclagem e fotos com os moradores e trabalhadores da região.
         Divirto-me imaginando como seriam ricas e interessantes as possíveis conversas entre essas duas mulheres revolucionárias, pessoas que não permitiram que o tempo e a dura luta pela sobrevivência calassem seu coração e sensibilidade. Certamente as duas estariam nas listas e na torcida para que a presidente Dilma vetasse o código florestal, ririam das “cachoeiras” de escândalos que acompanham a luta dos poderosos e dos “espertos ao contrário”, dos que “atiram a pedra e escondem a mão”, como diria Estamira, se angustiariam ao pensar no destino de nossa depressiva humanidade perdida.
Mas certamente gostariam de saber que suas vidas e lutas não foram em vão, e que depois de suas mortes, outros “loucos” continuariam divulgando suas ideias, dando voz a seus seus pensamentos,  e que suas experiências servem de exemplo e inspiração para os que lutam pelo respeito ao ser humano, e que valorizam sua enorme riqueza e sabedoria, e que ainda hoje continuam sendo chamadas de “loucas”, mas agora sempre com um adjetivo: são “loucas geniais”, dessas pessoas raras e indispensáveis, que fazem a vida humana recobrar sentido e apontam para um caminho de crescimento, ampliação do nosso mundo e nossa consciência, compreensão e valorização da infinita complexidade do ser humano, e esperança na luta por se criar um mundo melhor para todos.

Alex Xavier 
      Maricá, 11 de Maio de 2012