domingo, 28 de outubro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Vinícius - Crítica de Jabor
O filme ‘Vinicius’ é a viagem a Ipanema do ar POR ARNALDO JABOR
Vem aí um estouro de bilheteria. Assim como os "Dois filhos de Francisco", é também um poema afetivo, só que em outra chave. Não é um filme de ficção tradicional, não é um documentário. É uma terceira coisa, um ensaio poético, um pensamento filmado, um álbum biográfico sobre Vinicius de Moraes, o homem vertiginoso. Chama-se "Vinicius", co-produzido com sua filha Suzana e dirigido por Miguel Faria Jr., durante três anos de torturadas pesquisas e reflexões para retratar a apaixonada busca do poeta por uma felicidade não conformada, pela conquista de um êxtase, de uma plenitude que ele mesmo desconhecia. Jorge Peregrino, o presidente da UIP, me segreda: "É um arrasa-quarteirão". Isso mesmo: quem conhece a relação cinema-público, quem já sofreu a angústia da comunicação tela-olho percebe que há um feitiço raro, um mistério nesse filme de Miguel que provoca em nós uma intensa ligação amorosa, que faz muita gente sair chorando e rindo, querendo ver de novo. Por quê? Vamos tentar entender esse mistério. O filme tem sacanagem? Não. Tem violência? Não. Suspense e efeitos especiais, corrida de carros, tiros e porrada, princípio, meio e fim? Não. Nada disso. No entanto, tem uma alma líquida, um fluido que corre entre as imagens que tocam o espectador como um contato físico, um beijo.
Uma das chaves do segredo é o tema. Vinicius de Moraes é o herói de duas décadas do grande mito de felicidade do Brasil: Ipanema dos anos 50, 60, a época que começa em JK e vai até 64, com o golpe militar que mudou o rumo do país. Íamos numa direção e entramos num desvio, onde até hoje estamos.
O filme mostra um passado que poderia ser nosso presente. Ipanema era uma ilha de felicidade num país injusto, mas foi um momento raro em que o desejo e o projeto pareciam se encontrar, numa harmonia entre a praia, o bar, as ruas com amendoeiras, ruas calmas onde a música, o Cinema Novo, a literatura floresceram, antes do início da massificação. Tom Jobim disse uma vez: "O Brasil só será feliz quando for uma grande Ipanema". Estranhamente, o Cinema Novo nunca captou esta felicidade e esta esperança. Apenas um grande filme foi feito sobre esta época: "Todas as mulheres do mundo", de Domingos de Oliveira, um clássico romântico, que nosso ideologismo neurótico sabotou na época. "Garota de Ipanema", de Leon Hirzsman, fracassou, pois Leon (grande cineasta) não conseguiu amar a beleza "pequeno-burguesa" e fez um filme "contra a alienação" de Ipanema. Só podíamos criticar, não conseguíamos louvar nada, nesses tempos ideológicos. Assim, faltava um testemunho dessa época de ouro, e ele veio agora, 30 anos depois, neste filme de Miguel Faria. Só agora o cinema mostra essa delicadeza perdida. Viver em Ipanema era uma experiência artística e política. Estávamos em plena utopia antes da chegada do mundo real em 64; antes do pesadelo, tivemos um sonho. Vivíamos em um espaço-tempo em que o amor estava se reinventando, sexualizado, abençoado com o surgimento da pílula e com o brilho mágico do psicodelismo. Ir à praia era um ato político. Ver o pôr-do-sol era um comício. A felicidade não teria fim, e a tristeza, sim. No entanto, não éramos políticos de traços duros, de luta, panfletos e fábricas; era uma política poética, soft , romântica. As casas viviam de portas abertas, onde se fazia música pela madrugada, onde se discutia literatura e revolução, época querida quando as namoradas começaram a "dar". Sexo era política. Eu me lembro de dizer a uma namorada que nosso amor era uma forma de luta contra o imperialismo.
Havia uma harmonia unindo Ipanema e a vida que levávamos. A arte não era uma exceção num mundo de pagodes e boçalidade. A arte era buscada, importante, traçava uma esperança; cada música composta, cada filme, nos parecia um crescimento histórico, uma sedimentação de verdades. Não sabíamos que um sórdido futuro já se tramava, debaixo de nossa euforia. Ainda éramos "modernistas" e a vida tinha um sentido. Ipanema era o caminho. E a vida de Vinicius era exemplar. Ninguém viveu assim. Vinicius era um herói existencial, um guerreiro com os pés no existencialismo do pós-guerra, acreditando em liberdade e projeto. Vinicius era um símbolo da coragem da solidão, do inconformismo, da recusa a vida burocrática. Quando ele largou o Itamaraty, desisti de fazer diplomacia, entrei para o Partido Comunista e virei cineasta.
Neste filme, vemos Vinicius nascer e amar até o fim. Sua vida parece um imenso travelling onde flutuam as mais lindas mulheres do Rio lendário que ele amou com paixão, com um ardor romântico que não conhecemos mais, hoje, nesses "acasalamentos" rápidos das revistas. O amor era eterno, mesmo se esfumando em brumas e espumas e nele tentávamos tocar alguma coisa infinita e plena, tão possível como a "revolução".
Vemos nos rostos dos atores geniais do filme, Ricardo Blat e Camila Morgado, uma fé da época, dizendo as poesias como se rezassem pela vida, vemos na extraordinária fotografia de Lauro Escorel e na direção de arte de Marcos Flaksman que eles recriaram a luz e o espaço de uma utopia lírica.
Aí, decifro outro mistério do intenso feitiço deste filme: o tempo. O tempo era outro, e me refiro a tempo como ritmo, timing . Movíamo-nos em outro ritmo, andávamos em paisagens claras, com perspectiva, percorríamos distâncias nítidas, andávamos pela praia até o Leblon. O mundo estava em foco e não era esse sumidouro de hoje. "Vinicius" não é um filme feito "hoje" sobre "antes". É um filme daquele tempo que vem nos tocar agora. O tempo do filme de Miguel é o tempo de antes. E, ao vê-lo, parece que tínhamos um futuro naquele passado, e temos a chance de sentir de novo o vento, a brisa e as batidas do mar de Ipanema.
Com
depoimentos comoventes e curiosos de amigos e grandes personalidades
brasileiras como Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Gilberto Gil, Maria
Bethânia, Tônia Carrero, Toquinho, Carlos Lyra, Antônio Candido, Edu
Lobo, Francis Hime e Miúcha, o longa traz interpretações de Camila
Morgado – que se destacou por seu trabalho na minissérie “A Casa das
Sete Mulheres” – e de Ricardo Blat, ator com sólida formação teatral e
que realizou diversos trabalhos no cinema e na TV, como por exemplo na
minissérie global “Hoje É Dia de Maria”.
O show,
o ponto de partido do longa, conta com grandes músicos da MPB – Adriana
Calcanhoto, Olívia Byington, Zeca Pagodinho, Yamandú Costa, Renato
Braz, Mônica Salmaso, Mariana de Maraes, Sergio Cassiano, MS Bom, Nego
Jeif, Lerov e Mart´Nália – interpretando grandes sucessos musicais de
Vinicius.
Nascido
em 1913 no Rio de Janeiro de família de classe média, Vinicius de
Moraes foi testemunha e personagem de importantes transformações na
cidade e desenvolveu um dos percursos mais originais e fecundos da cena
cultural brasileira do século XX. Um dos exemplos foi em 1956, em que
ousou reunir a cultura erudita e popular em Orfeu da Conceição, obra que
garantiu Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1956, bem como o Oscar
de Melhor Filme Estrangeiro. Sua “Garota de Ipanema”, em parceria com
Tom Jobim é uma das músicas mais tocadas em todo o mundo, em todos os
tempos.
O longa
não restrige apenas à vida artística de Vinicius, sua vida pessoal,
marcada por muitas paixões, nove casamentos e amizades duradouras,
também é retratada por raridades em arquivos, depoimentos de amigos e
familiares.
A montagem de um show é o ponto de
partida para a reconstituição de uma trajetória sem paralelos no cenário
cultural do país. A Vida, os amigos, os amores de Vinicius de Moraes,
autor de mais de 400 poesias e cerca de 400 letras de música. A essência
criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio
de Janeiro através de raras imagens de arquivo, entrevistas e
interpretação de muitos de seus clássicos.
Vinícius – Miguel Faria Jr
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