MEDIANERAS
De vez em quando nós topamos com filmes
que nos fazem questionar nossa existência. Não que isso seja profundo
demais, longe do nosso dia a dia ou até mesmo que “Medianeras” seja um
filme espetacular e indispensável, mas há no longa argentino esse
objetivo que, em parte, se cumpre.
“Medianeras” conta a história de duas
pessoas solitárias em Buenos Aires. Martín (Javier Drolas), designer
preso a seu próprio mundo, e Mariana (Pilar López de Ayala), arquiteta
frustrada com quase tudo na vida.
A sinopse pode relevar um filme denso e
chato, mas não é isso que vemos na tela. Na verdade, Medianeras se
revela uma trama dividida em duas histórias que correm em paralelo e que
sabemos que, em algum momento, irão se cruzar. A estrutura também é
simples e vai nos levando aos poucos a conhecer cada um dos personagens.
Sem pressa, mas também com atenção para não ficar enfadonho. É assim
que conhecemos Martín, atento às transformações sociais de sua cidade,
crítico ao extremo do modo de vida moderno, mas, vejam vocês,
extremamente dependente da internet e suas maravilhas. Mariana é
igualmente crítica, principalmente porque analisa o mundo por um viés
bem particular, que mistura arquitetura e frustrações amorosas/sexuais.
Martín segue parte de seus instintos masculinos, tenta o mínimo de
contato social, enquanto que Mariana é ainda menos sociável.
Esse olhar crítico de Buenos Aires é
direcionado por pequenas pílulas, que os personagens vão jogando para o
espectador ao passo em que interagem com a cidade (toques de Woody Allen
que, aliás, tem citação direta numa cena). Ao final, temos um quadro
desolador da cidade, mas pelo fato de que isso vai acontecendo aos
poucos, não nos irritamos com o filme nem percebemos esse lado ruim da
cidade durante o filme. Palmas, então, para Gustavo Taretto, que assina
direção e roteiro do longa. Ele é o responsável por essa crueza nos
sentimentos, não porque vemos tipos sujos e “reais” ao longo da
projeção, mas porque somos convidados a adentrar os sentimentos mais
íntimos de dois típicos portenhos, que vivem o lado bom da cidade, mas
que sofrem pesadamente pelo lado ruim. A vida moderna é, em grande
parte, a responsável pelos problemas dos dois, o que não deixa de ser
verdade, mas soa como exagero – como quando vemos uma pessoa reclamar da
vida e não vê-la fazendo nada para mudar a situação.
A todo o momento Taretto traz para a
tela referências e metáforas, como que querendo nos aproximar ao máximo
da realidade que ele conta (bem ao estilo Amélie Poulain). Não vivemos a
vida em Buenos Aires, mas compartilhamos da claustrofobia que é a
paisagem moderna entupida de prédios, só para citar um exemplo. Além
disso, ele traz também referências pop, como Star Wars, Astroboy, Wally
(de “Onde Está Wally?”), bate papo de internet etc. Como não se vê na
tela? Como não compartilhar de vários sentimentos e dificuldades
enfrentadas por Martín e Mariana? Os dois, que quase não se encontram no
filme, revelam ter uma química incrível e que me lembrou, em alguns
momentos, (500) Dias com Ela.
Talvez a metáfora mais perfeita
utilizada pelo roteiro seja mesmo a dos prédios, sua arquitetura caótica
em meio a uma paisagem social em constante mudança e pessoas tentando
se adaptar à vida moderna. Por isso o nome do filme é tão importante – e
quem não sabe espanhol, como eu que só sei o básico, vai entender
perfeitamente quando Mariana explicar o significado da palavra e,
consequentemente, de todo o filme.


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