sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Encontro de Estamira com Nise da SIlveira


Encontros notáveis


         Aprendi com o pensamento Junguiano, que os “acasos” são, ou podem ser, significativos.  A ideia da sincronicidade nos leva a pensar não na relação temporal de causa e efeito, mas na ocorrência de fatos sincrônicas, que espelham o momento presente, o agora.  Interessante e importante abordagem  que abre portas e janelas significativas da realidade.  Dessa forma, mesmo os fatos do cotidiano ganham significado, alma, como diria o pensador pós junguiano James Hillman, de quem gosto muito.
         Partindo daí, Imaginei a riqueza desse feliz encontro entre essas duas figuras: Nise da Silveira e Estamira.  Que se tenha conhecimento, esse encontro nunca ocorreu de fato; seu primeiro encontro real se deu nesse evento e nesses texto, que as uniu.
Depois da sessão, encantadas uma com a outra, marcariam encontro no Museu de Imagens do Inconsciente em Engenho de Dentro, ou na Casa das Palmeiras, em Botafogo;  instituições criadas por Nise da Silveira no Rio de Janeiro.
         Duas mulheres com origens completamente diferentes. Nise da Silveira nasceu em Alagoas, em 15 de fevereiro de 1905; estudou medicina em Salvador e passou grande parte de sua vida no Rio de Janeiro, morando em Santa Teresa e depois no bairro do Flamengo. Estamira Gomes de Souza viveu no lixão de Jardim Gramacho, Duque de Caxias durante 22 anos; era analfabeta, negra e pobre. Diagnosticada como doente mental nunca foi internada, mas poderia ter frequentado o Hospital de Engenho de Dentro, ou a Casa das Palmeiras, onde a Dra. Nise trabalhou.
         Ambas conheciam na pele a exclusão, e eram consideradas loucas. Estamira era diagnosticada como esquizofrênica, tomava remédios psicotrópicos, e vivia na miséria; Dra Nise da Silveira por ser mulher numa profissão na época dominada por homens, nordestina, questionadora e humanista. Rebelou-se contra os métodos cruéis e violentos impostos aos doentes mentais como os eletrochoques, os choques insulínicos e a lobotomia. Afirmava que eram o carinho e o acolhimento os principais medicamentos no atendimento a esses pacientes, e apostava radicalmente no valor expressivo e terapêutico das imagens. Como percebia que os pacientes tinham muita dificuldade em usar as palavras e a comunicação verbal direta, entendeu que através da criação de imagens elas podiam comunicar melhor suas emoções e seu riquíssimo mundo interno, no setor de terapia ocupacional do hospital. Isso fez com que ficasse rotulada entre os médicos como exótica, ou louca, fama que aumentou expressivamente quando ela começou a admitir e mesmo a estimular a presença de animais, cães e gatos nos ateliers de pintura e escultura.  Com sua excepcional humanidade e sensibilidade, percebeu que os pacientes conseguiam expressar afeto e cuidado mais facilmente com os animais que com outros humanos. Considerava que a enorme importância dessas “pontes afetivas”, capazes de retirar os chamados “doentes mentais” de suas ilhas de isolamento e depressão eram muito mais importantes que os eventuais riscos de contaminação que os animais pudessem representar. Essa postura era completamente nova em sua época.
         Mas Nise da Silveira conheceu também a perseguição política por suas ideias socialistas. Em 1936, foi presa durante 18 meses no presídio da R. Frei Caneca pela posse de livros comunistas durante a ditadura militar brasileira, e ficou profundamente indignada e inconformada com a presença de médicos cúmplices das torturas, funcionários dos órgãos de repressão. Durante esse período, conheceu Graciliano Ramos e virou personagem do livro “Memórias do cárcere”. Essa dura vivência ajudou-a a definir ideológicamente, que tipo de trabalho queria fazer, o que entendia por saúde. No período de 36 a 44 permaneceu com seu marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público por razões políticas. Durante seu afastamento fez uma profunda leitura reflexiva das obras de Spinoza, material que publicou em seu livro Cartas a Spinoza em 1995.
         A frase de Estamira: “sabia que tudo que é imaginário existe, tem e é?” certamente interessaria a doutora. Poderia ser usado como um lema ou um resumo de trabalho dessa brilhante médica brasileira que sempre acreditou nas imagens e na força expressiva do inconsciente.
         Imagino que se visitasse o Museu de Imagens do Inconsciente, Estamira se interessaria bastante pelas obras de outros pacientes expostos no museu. Veria muito de seu caos interior expresso nas formas e cores de outros “alienados”. Se houvesse espaço e oportunidade, provavelmente produziria ela mesma imagens tão fortes quanto suas frases e percepções de nosso mundo.
         Estamira representa o saber popular, intuitivo, não acadêmico em estado bruto. Algumas das pessoas mais interessantes e sábias que conheci nunca tinham pisado numa escola ou lido um livro. Mas eram sábias formadas na escola do cotidiano, na sabedoria do viver o dia a dia.
         Talvez a Dra. Nise se interessasse em conhecer o lixão de Gramacho e buscar nele material para trabalhos de reciclagem e reaproveitamento do lixo, técnicas que ela não usou em seu trabalho, mas que se tornaram necessárias e em voga na atualidade e que ela certamente aprovaria.
         Talvez comentassem o filme “Lixo Extraordinário” que mostra o trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz no mesmo lixão de Gramacho, usando reciclagem e fotos com os moradores e trabalhadores da região.
         Divirto-me imaginando como seriam ricas e interessantes as possíveis conversas entre essas duas mulheres revolucionárias, pessoas que não permitiram que o tempo e a dura luta pela sobrevivência calassem seu coração e sensibilidade. Certamente as duas estariam nas listas e na torcida para que a presidente Dilma vetasse o código florestal, ririam das “cachoeiras” de escândalos que acompanham a luta dos poderosos e dos “espertos ao contrário”, dos que “atiram a pedra e escondem a mão”, como diria Estamira, se angustiariam ao pensar no destino de nossa depressiva humanidade perdida.
Mas certamente gostariam de saber que suas vidas e lutas não foram em vão, e que depois de suas mortes, outros “loucos” continuariam divulgando suas ideias, dando voz a seus seus pensamentos,  e que suas experiências servem de exemplo e inspiração para os que lutam pelo respeito ao ser humano, e que valorizam sua enorme riqueza e sabedoria, e que ainda hoje continuam sendo chamadas de “loucas”, mas agora sempre com um adjetivo: são “loucas geniais”, dessas pessoas raras e indispensáveis, que fazem a vida humana recobrar sentido e apontam para um caminho de crescimento, ampliação do nosso mundo e nossa consciência, compreensão e valorização da infinita complexidade do ser humano, e esperança na luta por se criar um mundo melhor para todos.

Alex Xavier 
      Maricá, 11 de Maio de 2012

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